Título: Rumor sobre fundo europeu de 2 tri anima mercados
Autor: Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 19/10/2011, Economia, p. 25

França e Alemanha teriam fechado acordo, diz "Guardian". Bolsa de SP avança 2% e NY, 1,58%

RIO, LONDRES e NOVA YORK. A notícia de que França e Alemanha teriam chegado a um acordo para elevar o fundo de resgate europeu a 2 trilhões, divulgada pelo site do jornal britânico "The Guardian", animou os investidores e puxou os mercados que ainda estavam em funcionamento. O Ibovespa, índice de referência da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), avançou 2,08%, aos 55.031 pontos. Pela manhã, devido à desaceleração da economia chinesa, chegara a recuar 1,34%. O dólar comercial fechou em queda de 0,62%, cotado a R$1,758, tendo subido 1,02% pela manhã.

Em Nova York, o Dow Jones subiu 1,58%, o S&P 500 avançou 2,04% e o Nasdaq, 1,63%. A valorização das ações do setor financeiro puxaram o movimento em Wall Street, com o início da divulgação de resultados. O Bank of America anunciou lucro líquido de US$6,2 bilhões no terceiro trimestre, contra prejuízo de US$7,6 bilhões no mesmo período de 2010. Seus papéis saltaram 10,1%. Já o Goldman Sachs teve uma perda de US$393 milhões no período. Ainda assim, suas ações subiram 5,5%, devido à alta da receita com corretagem.

Citando fontes diplomáticas da União Europeia (UE), o "Guardian" afirma que a possibilidade de a França ter sua nota, hoje "Aaa", rebaixada pela agência de classificação de risco Moody"s teria sido um fator a mais de pressão para fechar um acordo na cúpula do bloco, no próximo domingo. Apesar de a Alemanha ter, nos últimos dias, minimizado a possibilidade de anunciar uma solução definitiva para a crise na Europa, as fontes da UE disseram ao "Guardian" que o acordo reforçaria as defesas financeiras na região, para o caso de uma moratória. Para muitos analistas, é inevitável um calote da Grécia, que hoje e amanhã enfrenta uma greve geral.

Isso, segundo o jornal, ocorreria de duas formas. Em primeiro lugar, o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Feef) teria instrumentos adicionais que lhe permitiriam oferecer garantias para credores, tanto privados como públicos. As fontes disseram ao "Guardian" que isso equivaleria a quintuplicar o valor do fundo, hoje de 440 bilhões.

Em segundo lugar, os bancos teriam de aumentar seu capital, no valor aproximado de 100 bilhões. Segundo as fontes, os bancos franceses e alemães poderiam fazer isso sem recorrer aos governos ou ao Feef. Mas os de outros países poderiam não ter essa capacidade.

Reforçando as preocupações com a crise da dívida na zona do euro, a Standard & Poor"s (S&P) reduziu sua nota para a indústria bancária italiana e rebaixou 24 instituições financeiras do país, citando um possível aumento do custo de financiamento. Os principais bancos, no entanto, o Intesa Sanpaolo e o UniCredit, o maior do país, tiveram seu rating reafirmado. A decisão reflete o rebaixamento da nota soberana da Itália, no mês passado.

Depois do fechamento dos mercados, a Moody"s anunciou o rebaixamento da classificação da dívida soberana da Espanha, em dois níveis, de "Aa2" para "A1", com perspectiva negativa - ou seja, pode haver um novo corte. Ao justificar a decisão, a agência afirma que a Espanha continua vulnerável à turbulência dos mercados e não apresentou uma "solução crível" para a crise da dívida. A Moody"s cita ainda o impacto negativo das medidas de austeridade no crescimento da economia. No dia 13, a S&P rebaixou a Espanha em um grau, de "AA" para "AA-".

Os mercados europeu e asiático não se beneficiaram da notícia do "Guardian". Com a desaceleração da China e a ameaça de rebaixamento da França, Londres recuou 0,48% e Paris retrocedeu 0,79%. Já Frankfurt avançou 0,31%. Em Tóquio, o índice Nikkei fechou em baixa de 1,55%. Hong Kong caiu 4,23%, e Xangai, 2,33%.

Na Bovespa, a China afetou principalmente os papéis de empresas exportadoras de commodities (matérias-primas com cotação internacional), como a Vale. O papel PNA (preferencial, sem direito a voto) da mineradora ficou no negativo quase todo o pregão, mas conseguiu fechar em alta de 0,15%. O presidente-executivo da Vale, Murilo Ferreira, negou que possa haver mudanças na definição dos preços do minério vendido à China. Mas confirmou a jornalistas, em Brasília, que a empresa poderá avaliar propostas de clientes.

Já a OGX Petróleo ON (ordinária, com voto) avançou 6,54%, enquanto a Petrobras PN subiu 0,78%. A maior alta do Ibovespa foi Telemar Norte Leste PN, da Oi, com 9,70%, depois da convocação de assembleia de acionistas para 3 de novembro. (Vinicius Neder, com agências internacionais)