Título: Mais verba do Esporte para ONG ligada ao PCdoB
Autor: Carvalho, Cleide
Fonte: O Globo, 21/10/2011, O País, p. 9

Acetel recebeu R$17,3 milhões desde 2004; apesar da promessa de 600 empregos, não há sequer 50 funcionários

SÃO PAULO. Inaugurada em 2005 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a promessa de gerar até 600 empregos, a fábrica de artigos esportivos da Associação dos Mutuários e Moradores do Conjunto Santa Etelvina (Acetel), na Zona Leste de São Paulo, tem hoje entre 35 e 40 pessoas, que produzem bandeiras, bonés, camisetas e bolas. Além disso, um outro grupo, de 85 a 100 pessoas, costura bolas em casa, sem rendimento fixo, mas calculado por unidade finalizada. Desde que foi idealizada, a fábrica já recebeu R$17,3 milhões do Ministério do Esporte, por meio do programa Pintando a Cidadania, dos quais R$11 milhões nos últimos três anos.

A Acetel é mais uma entre as ONGs ligadas ao PCdoB que se beneficiam de verbas do ministério, sob o comando do PCdoB desde 2003. O convênio com o Esporte começou em 2004, na gestão do hoje governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT) - que, à época, era filiado ao PCdoB - e continuou sob a gestão de Orlando Silva.

- Eu sou filiado desde 1993, mas nunca militei no partido - diz Silvio José Figueroa Amorim, presidente da entidade.

Amorim pode não ser militante aguerrido, mas a filha dele é. Em agosto, Janaina Amorim foi uma das delegadas da capital paulista para a conferência estadual do PCdoB. Também o gerente da fábrica, Clemente dos Santos, não esconde ser filiado desde 1992 e militante.

- Houve uma avaliação técnica do ministério para verificar se tínhamos ou não condições de produzir. Prestamos conta da produção e da verba recebida - afirma Santos.

A Acetel foi criada em 1993 para representar os cerca de 20 mil moradores do conjunto Santa Etelvina numa ação movida contra a Cohab, a empresa municipal responsável pela obra. A pendência segue na Justiça, e a entidade tomou corpo. Segundo Amorim, tudo que a Acetel construiu foi com o esforço de seus associados, que contribuem com R$25 por mês. Os projetos sociais, diz, têm verba própria.

Sobre a verba do ministério, mais da metade foi repassada nos últimos três anos: R$7 milhões em 2008, R$2,4 milhões em 2009 e R$1,5 milhão este ano. Apesar do incremento, a fábrica está longe de gerar tanto emprego quanto divulgado. No site da Acetel, a entidade diz que o projeto criou, "em apenas nove meses, 540 empregos no bairro", "com salários entre R$500 a R$2 mil por mês".

Os números reais são bem mais modestos do que os alardeados por Lula, na inauguração da fábrica, em 2005. "Por enquanto, só tem 320 trabalhadoras, mas o Agnelo avisou aqui, o presidente da associação já avisou, isso aqui vai ter que fazer dois turnos, porque está crescendo muito. Vamos começar até a exportar bola para Angola, exportar camiseta, ou seja, daqui a pouco a gente tem dois turnos, três turnos e, ao invés de 270, 320, nós vamos ter 500, 600 mulheres podendo trabalhar aí".

A ONG também já esteve entre as beneficiárias do programa Segundo Tempo, e o site da Acetel ainda apresenta Janaina como coordenadora do programa. Santos conta que o Segundo Tempo funcionou entre 2007 e 2008 e foi encerrado. Em 2009, o Esporte também autorizou a Acetel a captar R$2,1 milhões em recursos, mediante doação e patrocínio, para projetos de Esportes de Rendimento.

Segundo Clemente, o contato para ser beneficiada com o programa do Esporte foi simples: os dirigentes da entidade mandaram um e-mail para o ministério e, como tinham experiência em confecção de roupas de boneca, receberam a visita de um técnico do governo.