Título: Lula cancela compromissos até fim de janeiro
Autor: Roxo, Sérgio; Vasconcelos, Adriana
Fonte: O Globo, 31/10/2011, O País, p. 10

Dúvida é se ex-presidente manterá articulações políticas, como costura da candidatura de Haddad para prefeitura de SP

SÃO PAULO e BRASÍLIA. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva cancelou a agenda de viagens nacionais e internacionais até o fim de janeiro de 2012, devido ao câncer na laringe. Os médicos querem que Lula se concentre no tratamento. A próxima viagem do ex-presidente estava marcada para 8 de novembro, quando ele iria a Porto Alegre para um seminário promovido pelo governo estadual sobre ética e combate à corrupção.

No dia seguinte, viajaria para Washington, para receber um prêmio da ONG americana Africare. Depois, embarcaria para a República Dominicana, onde daria palestra e receberia o título de doutor honoris causa. Antes de voltar ao Brasil, pretendia ir à Venezuela para encontrar o presidente Hugo Chávez.

Segundo Paulo Okamotto, presidente do Instituto Cidadania e um dos principais assessores de Lula, ele ainda visitaria Índia e Moçambique este ano.

- O mais importante agora é o tratamento - disse Okamoto.

O petista recebe entre US$200 mil e US$300 mil por palestra no exterior. Os contratos, em geral, incluem deslocamento em jatos particulares, carros blindados e hospedagem em hotéis cinco estrelas.

A grande dúvida é se Lula conseguirá, durante a quimioterapia, dedicar-se às negociações políticas. Uma de suas principais atividades nos últimos meses vinha sendo articular o nome do ministro da Educação, Fernando Haddad, como candidato petista à prefeitura de São Paulo. A doença de Lula apareceu bem na reta final da disputa entre os cinco pré-candidatos na capital paulista. A prévia do PT está marcada para 27 de novembro.

A candidatura de Haddad foi idealizada e costurada por Lula. Com o suporte do ex-presidente, o ministro, mesmo inexperiente em disputas políticas e sem ligação com a militância do partido, tornou-se o favorito. Sete dos 11 vereadores do PT de São Paulo já anunciaram apoio a Haddad.

- O que nos cabe no momento é desejar o pronto restabelecimento do presidente, sem esse tipo de preocupação - disse Haddad no fim de semana.

A principal adversária de Haddad é a senadora Marta Suplicy. Mesmo isolada na legenda, Marta conta com o apoio da base petista na periferia. Lula já defendeu que o partido precisa de uma cara nova, mas, apesar da pressão do ex-presidente, ela tem resistido. Sobre a influência da doença de Lula na disputa paulistana, foi direta:

- Não muda nada. Lula vai continuar trabalhando, um pouco mais devagar no primeiro ou segundo mês da quimio.

A notícia da doença de Lula causa preocupação entre seus aliados, já que o ex-presidente estava à frente da costura de candidaturas e alianças em razão das eleições municipais. Mas especialistas preveem que o PT poderá tirar proveito da situação, na medida em que o sofrimento de Lula poderá sensibilizar o eleitorado.

- Vamos assistir a um processo de canonização do Lula em vida. Se, por um lado, a doença do ex-presidente gera um contratempo para o PT, por outro, Lula deve, agora mais do que nunca, transformar-se num oráculo que dificilmente será contrariado. Até mesmo a oposição deve passar a ser mais reverente a ele - prevê o cientista político Paulo Kramer.

O fato de a doença de Lula ter sido detectada já quase no fim do ano, quando há normalmente uma redução no ritmo das articulações políticas, deverá ajudar a direção do PT a se adaptar à nova realidade. Mas provavelmente o ex-presidente não poderá acompanhar de perto a reforma ministerial que deverá ocorrer até janeiro.

Isso poderá garantir uma maior autonomia para que Dilma faça as mudanças de sua equipe, reduzindo a influência de seu antecessor na nova composição ministerial. A oposição considera cedo para dizer que a doença de Lula possa comprometer as articulações políticas do PT para as eleições de 2012 e mesmo inviabilizar uma eventual candidatura sua à Presidência em 2014, caso Dilma abra mão de disputar a reeleição.

- Não acredito que isso (a doença) venha a atrapalhar as atividades de Lula, e a nossa torcida é por sua pronta recuperação - declarou o presidente nacional do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE).