Título: Um comunista e devoto, em constante mutação
Autor: Lima, Maria
Fonte: O Globo, 28/10/2011, O País, p. 13
Ex-líder estudantil, Aldo tem a simpatia de militares e, unido a ruralistas, derrotou o governo na Câmara
BRASÍLIA. Tão eclética quanto a decoração de seu gabinete, que mistura estátuas de Dom Quixote, Mao Tse Tung, Padre Cícero, Nossa Senhora Aparecida , Lênin, Abraham Lincoln, quadros de Simon Bolívar e do patriarca da Independência, José Bonifácio, são as relações políticas do comunista Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Aldo não se "encaixota", como ele mesmo diz, nas ideologias da foice e do martelo. Ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), amigo dos militares, ex-ministro apagado da articulação política do governo Lula, ele retorna à Esplanada com a missão de dar jeito nos malfeitos não coibidos pelo camarada Orlando Silva. Seu arco de amizades vai do ruralista Ronaldo Caiado (DEM-GO) a José Serra, tucano companheiro de arquibancada nos jogos do Palmeiras.
Especialista em assuntos de defesa nacional, tem a simpatia dos militares e provocou muita polêmica entre os ambientalistas e a presidente Dilma Rousseff, ao elaborar parecer do Código Florestal considerado favorável ao agronegócio. Suas relações com a área de esportes são restritas, mas não se pode dizer que se limitam à paixão pelas peladas de futebol, pelas cavalgadas, pelo Viçosa de Alagoas, pelo Palmeiras e pelo Flamengo.
Há dez anos, mexeu com muitos interesses da área futebolística ao presidir a CPI da CBF/Nike, criada para apurar interferência da patrocinadora na final da Copa de 1998, na França. Na investigação da participação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) no episódio, comprou briga com o presidente da entidade, Ricardo Teixeira, com quem terá que negociar agora as regras da Copa de 2014 no Brasil. Mas o novo ministro disse que essa briga está superada:
- Na CPI nós investigamos a CBF, que, na Justiça, impediu a publicação de um livro com o resultado das investigações. Mas eu não guardo ressentimentos disso. Vamos ter uma cooperação com independência - disse ontem Aldo.
Alagoano de Viçosa, paulista radicado, Aldo tem, ao lado do quadro de José Bonifácio, logo acima de sua mesa de trabalho, uma fotografia do escritor americano Mark Twain. De cultura geral elogiada por todos, o novo ministro do Esporte tem como autores preferidos os brasileiros Castro Alves e o conterrâneo Graciliano Ramos. Mas de Twain, tem carinho especial por "As aventuras de Tom Sawyer", porque a história, diz, guarda semelhança com as peripécias da infância e adolescência na Fazenda Lia, de propriedade do menestrel Teotônio Vilela.
Ali cresceu caçando passarinhos e tomando banho de rio com oito irmãos, o pai vaqueiro José Figueiredo e a mãe professora Maria Cila Rebelo. Aos 11 anos, foi para o internato da Escola Agrícola Floriano Peixoto. Quando perdeu o pai e a mãe, dava aulas na escola primária, vendia arroz e feijão na feira para ajudar nas despesas.
- Eu, comunista, sou suspeito para falar de patrão. Mas Teotônio era uma pessoa boa. Interessou-se pelos meus estudos, incentivou meu pai a me botar para estudar e todo ano me dava os livros da escola - relembra Aldo, mostrando estátua do menestrel na sua galeria.
Aos 17 anos, entrou na faculdade de Direito da Universidade Federal de Alagoas, mas não concluiu o curso. Entrou para o movimento estudantil, trabalhando na publicação de jornais. Virou jornalista e é casado com a jornalista Rita Polli há mais de duas décadas.
A correção de Aldo na política é também apontada por todos. Não há escândalo conhecido na sua vida.
- Não acredito que você vá falar mal de mim no perfil. O que me preocupa é achar que tem alguma coisa pra falar mal - brincou.
Quando era presidente da Câmara dos Deputados, em 2005, ficou muito irritado com a "denúncia" de que a esposa, funcionária do partido antes de sua eleição para o comando da Casa, estava trabalhando no jornal do PCdoB "O Vermelho", por indicação sua. Também ficou chateado com a notícia, da mesma época, de que estava usando o apartamento funcional para abrigar a sogra, dona Maria das Dores, mesmo morando na residência oficial. Aldo explicou que usava o apartamento funcional para guardar sua imensa biblioteca.
Sobre sua devoção a santos mesmo sendo comunista - além de Nossa Senhora, tem no gabinete imagem de São Francisco de Assis e São Sebastião - Aldo diz que mais que um ritual religioso, o catolicismo no Brasil é uma cultura:
- Quando me aperto, me pego com todos os santos, não tem um que sou devoto preferido.
Com seu nacionalismo quase folclórico, Aldo já se insurgiu contra a Barra da Tijuca, a "Miami brasileira", e foi autor de projeto contra o excesso de estrangeirismo na língua portuguesa, como mouse, diet, light, outdoor e tantas outras palavras. Também aprovou projeto obrigando a adição de um percentual de farinha de mandioca à farinha de trigo e seus derivados, adquiridos pelo poder público. Na mesma linha, apresentou projeto para cria o Dia Nacional do Saci-Pererê ser comemorado no dia do Halloween, em 30 de outubro
Em 2008, Aldo se aventurou em sua única campanha pelo Executivo, quando foi candidato a vice-prefeito na chapa derrotada de Marta Suplicy (PT) para a prefeitura de São Paulo. No mês passado sofreu outra derrota, na disputa pela vaga do Tribunal de Contas da União (TCU) com a deputada Ana Arraes (PSB).
- Não ficou sequela. Já perdi tanta eleição! Vai ficar sequela de quê em mais essa? - afirma Aldo, que está no seu sexto mandato consecutivo na Câmara.
Como relator do Código Florestal na Câmara, Aldo fez um extenso trabalho de pesquisa, audiências públicas em todas as regiões do país e visitas a rincões da Amazônia. Mas no processo de elaboração e votação do texto, perdeu a confiança do Planalto e ganhou o apoio dos ruralistas. Seu texto, aprovado por 410 dos 513 deputados, foi criticado por ambientalistas e rejeitado pelo governo, por permitir a anistia irrestrita dos agricultores que desmataram em áreas de preservação e abrir brecha para que novos desmates sejam feitos no futuro. O projeto agora tramita no Senado. Aldo continua atuando - pelo menos até antes de ser escolhido ministro - para manter os pilares de seu trabalho.
COLABOROU Catarina Alencastro