Título: Polícia tem vitórias sobre sua banda podre
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Fonte: O Globo, 11/11/2011, Opinião, p. 6

Em uma semana, os organismos de segurança do Rio de Janeiro (com o cada vez mais imprescindível apoio da Polícia Federal) contabilizam dois golpes profundos na estrutura de comando do tráfico de drogas. A morte de Marcelinho Niterói (braço-direito do megatraficante Fernandinho Beira-Mar), durante uma operação da PF no primeiro dia do mês, e a captura de Nem e outros dois chefões da facção do agora derrotado homem forte da Rocinha são incontestável vitória - no mesmo plano da ocupação do Complexo do Alemão, no fim de ano passado - sobre o crime organizado.

No caso específico da prisão de Nem, o episódio contém adicional simbologia de respaldo à política implementada pelo governo fluminense para melhorar os indicadores de criminalidade no estado e recuperar a imagem do aparato de segurança. Ao ser descoberto no porta-malas de um carro na Lagoa, o traficante da Rocinha recorreu ao expediente, sempre eficiente na relação promíscua entre criminosos e a banda podre das polícias, de, em troca da liberdade, oferecer dinheiro aos agentes do Batalhão de Choque da PM que o abordaram. Eles recusaram a propina, atitude digna que honra a farda e respeita os cidadãos que lhes pagam os salários.

Horas antes, o lado doente desse mesmo organismo de segurança marcava presença na operação de captura de outros dois chefes do tráfico, detidos com uma escolta de quatro policiais e um ex-PM, igualmente levados à prisão. Do conflito de atitudes entre o corpo sadio e a banda podre das corporações, prevaleceu aquela que deve, sempre, nortear o comportamento de quem tem o dever de salvaguardar os interesses da sociedade.

A captura de Nem consolida os movimentos do governo do estado para ocupar a Rocinha no fim de semana, passo fundamental para ali implantar uma Unidade de Polícia Pacificadora. A instalação dessa UPP representará a retomada da última grande favela do Rio ainda dominada pelo tráfico de drogas. Será também novo marco no avanço do braço armado do Estado sobre os domínios das quadrilhas de traficantes, e na implantação de uma política mais ampla de inclusão dessas comunidades no primado da cidadania, através da rede de serviços do poder público, pressuposto para o resgate da dignidade de famílias por décadas mantidas sob o jugo violento do crime organizado.

Não se pode perder de vista que as bem-sucedidas incursões contra o tráfico não devem ficar limitadas a seu aspecto policial-militar, fundamental nesta primeira fase de uma nova política de segurança. Deve-se lembrar, também, que a asfixia das quadrilhas de traficantes atende apenas a uma das frentes de combate ao crime organizado. Em outro front, o governo estadual terá de enfrentar o poder das milícias, mais insidioso que o dos traficantes, porque não é exercido a partir de bunkers como os que foram desmobilizados nas favelas pacificadas, não é financiado por uma única fonte de arrecadação e tem na sua estrutura de comando (maus) agentes públicos, policiais em sua maioria.

Há ainda a preocupante descoberta - a partir do levantamento das atividades de Marcelinho Niterói - de que traficantes e milicianos articulam uma aproximação para desafiar da mesma trincheira o poder constituído. É inescapável, portanto, que a desarticulação das milícias seja o próximo ponto da agenda de pacificação do estado.