Título: Mercados castigam Itália e bolsas caem mais de 3%
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Fonte: O Globo, 10/11/2011, Economia, p. 31

Taxa dos títulos do país bate recorde. Para Roubini, isso mostra que investidores querem saída imediata de Berlusconi

ROMA, LONDRES, NOVA YORK e RIO. Os mercados globais voltaram a despencar ontem devido a preocupações com a economia italiana após a confirmação da renúncia do premier Silvio Berlusconi. A taxa dos papéis do país atingiu o patamar que levou Portugal, Irlanda e Grécia a pedirem socorro financeiro. Para analistas, seria um sinal de que os mercados querem que ele deixe o cargo imediatamente, apesar de Berlusconi estar tentando alinhavar novas eleições, em lugar de um governo transitório.

A Bolsa de Milão despencou 3,78%, depois de recuar 5%. Frankfurt fechou em queda de 2,21%, e Paris, de 2,17%. Londres recuou 1,92% e Madri teve perda de 2,09%. O euro caiu 2,1% frente ao dólar, para US$1,3539. Em Nova York, o estrago foi mais forte, com todos os índices registrando perdas acima de 3%. O Dow Jones caiu 3,20%, o Nasdaq, 3,88%, e o S&P, 3,67%.

O Ibovespa, índice de referência da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), recuou 2,5%, aos 57.549 pontos. O dólar comercial fechou na máxima do dia, com alta de 2,07%, a R$1,776.

Boatos sobre mudanças na zona do euro estão por trás do aprofundamento das quedas no fim dos pregões. A agência Bloomberg News creditou ao jornal alemão "Handelsblatt" a informação de que o partido da chanceler Angela Merkel pretende tornar possível a saída de alguns países da área do euro.

Retorno de bônus passa patamar crítico de 7%

O retorno sobre os títulos de dez anos da Itália ficou em 7,32% ao ano. Quanto maior o retorno, menor a procura dos investidores, ou seja, estes estavam se desfazendo dos papéis. A queda não foi maior porque o Banco Central Europeu (BCE) entrou no mercado e comprou os bônus. O patamar de 7% é considerado crítico pois foi nesse nível que Irlanda, Portugal e Grécia tiveram de pedir ajuda à União Europeia por não conseguirem se financiar nos mercados.

O que deflagrou a crise foi a decisão da LCH Clearnet, a maior câmara de compensação da Europa, de elevar a margem exigida dos investidores para negociar os títulos da Itália. Esta passou de 6,65% para 11,65%. Com isso, o prêmio de risco para a Itália - a diferença entre seu título de dez anos e o bônus alemão - atingiu o recorde de 562 pontos percentuais.

O economista Nouriel Roubini, que já morou na Itália, afirmou ontem pelo microblog Twitter: "Os mercados estão dizendo a Berlusconi que saia AGORA. Eles não compram o esquema dele de fingir sair em duas semanas".

Apesar da desconfiança dos investidores, o economista-chefe da Legan Asset Management, Fausto Gouveia, ressalta que a Itália é diferente de Grécia, Portugal e Irlanda. Segundo Gouveia, o tamanho e a diversificação da economia italiana garantem maior capacidade de "gerar caixa". Grécia e Espanha (vista como a próxima "bola da vez") dependem do turismo, enquanto a Itália tem uma indústria diversificada.

- Por outro lado, uma queda da Itália causaria estragos muito maiores - diz Gouveia, citando o risco da dívida italiana, de quase 1,9 trilhão, para o sistema bancário europeu.

- Os mercados atacam animais fracos - disse à AP o analista política Franco Pavoncello, da Universidade John Cabot. - A Itália é considerada muito frágil politicamente, o que é pena, porque economicamente ela não é tão frágil.

Para premier, governo transitório é antidemocrático

O presidente italiano, Giorgio Napolitano, tentou acalmar os mercados, prometendo que Berlusconi deixará o cargo em breve. Ele disse que o processo será acelerado para convocar novas eleições ou estabelecer um governo provisório - opção que o partido de Berlusconi, o Povo da Liberdade (PDL), classifica de antidemocrática.

Berlusconi quer eleições, e já escolheu seu candidato: o ex-ministro da Justiça Angelino Alfano, de 41 anos. Mas, para Roberto D"Alimonte, analista político da Universidade Luiss, em Roma, isso significaria que Berlusconi continuaria no poder:

- Alfano será o primeiro violino - disse ele à AP.

Mas Napolitano, segundo analistas, prefere um governo de transição tecnocrático. Um sinal disso foram os elogios feitos ontem ao economista Mario Monti, que, segundo o presidente, "é um dois principais candidatos ao cargo de premier". Monti, que atualmente dirige a Universidade Bocconi, em Milão, foi nomeado senador vitalício por Napolitano.

O presidente também prometeu rapidez na aprovação das reformas econômicas - condição imposta por Berlusconi para deixar o cargo. Segundo a TV estatal, a votação pode ocorrer até sábado.

Segundo o jornal "Financial Times Deutschland", a reação dos mercados se deve, em parte, é a debilidade da oposição italiana. "A esquerda passou anos fazendo piada com o cabelo pintado e as festinhas do premier, mas esqueceu de apresentar um projeto político próprio". (Vinícius Neder, com agências internacionais)