Título: Escolta bandida
Autor: Victor, Duilo
Fonte: O Globo, 10/11/2011, Rio, p. 16

PF prende 3 policiais civis e dois ex-PMs dando proteção a 5 traficantes que fugiam da Rocinha

Duilo Victor, Fábio Vasconcellos, Gustavo Goulart e Gabriel Mascarenhas

Numa operação cirúrgica, agentes da Polícia Federal de Macaé prenderam ontem dez pessoas na Gávea, entre elas três policiais civis e dois ex-policiais militares, que estavam fazendo a escolta de cinco traficantes em fuga da Rocinha. Entre os bandidos estava Anderson Rosa Mendonça, o Coelho, de 32 anos, ex-chefe do tráfico no complexo de favelas de São Carlos, no Estácio. Coelho estava escondido na Rocinha desde que seu reduto foi pacificado, em fevereiro deste ano. Os bandidos teriam negociado, segundo uma alta fonte da Polícia Civil, o pagamento de cerca de R$2 milhões pela escolta feita pelos agentes do estado. Com escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, agentes federais estavam monitorando os traficantes e flagraram os policiais em conversas com os bandidos.

A ação contou com o auxílio de helicópteros e causou pânico em pedestres na Rua Marquês de São Vicente, em frente ao Shopping da Gávea, onde uma parte do bando foi presa. O outro grupo foi capturado na Rua Jardim Botânico, em frente ao Jockey Club. A lista de presos inclui Sandro Luiz de Paula Amorim, o Peixe, de 36 anos, ex-chefe do tráfico em Macaé, e Valquir Garcia dos Santos, o Carré, de 37, foragido do sistema carcerário. Entre os policiais civis, foram capturados Carlos Daniel Ferreira Dias, da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Saúde Pública, Carlos Renato Rodrigues, da Delegacia de Repressão a Roubos e Furtos de Carga, e Wagner de Souza Neves, da mesma unidade.

Granadas, fuzis, pistolas e drogas, em quantidade ainda não revelada, foram apreendidos. A ação da Polícia Federal ocorreu por volta das 18h. O bando ocupava quatro carros e passou sem problemas pelo cerco feito por policiais militares na Rocinha.

Além da PM, a Corregedoria Interna da Polícia Civil, com o auxílio de agentes da Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais, iniciou uma operação na Rocinha ontem para evitar supostas fugas de bandidos escoltados por policiais. Segundo o corregedor Gilson Emiliano, a ação foi baseada numa informação do Disque-Denúncia (2253-1177). Os agentes ficaram baseados nas imediações do Largo do Boiadeiro, próximo à Autoestrada Lagoa-Barra. Os cinco traficantes escoltados pelos três policiais civis e dois ex-PMs, no entanto, deixaram a favela pelo outro lado, pela Estrada da Gávea, seguindo pela Marquês de São Vicente.

PF rastreou pulseira eletrônica de preso

Segundo o Tribunal de Justiça, a PF pediu auxilio à Vara de Execuções Penais para monitorar um dos integrantes do grupo que foi preso. A PF sabia que ele, por ser foragido do sistema penal, estava usando uma pulseira eletrônica. Através desse monitoramento, foi possível localizar o grupo.

A correria dos policiais para capturar os bandidos transformou a rotina da Rua Arthur Araripe, uma via curta, predominantemente residencial, em frente ao shopping da Gávea, que liga a Marquês de São Vicente à Autoestrada Lagoa-Barra. Os policiais fecharam o trânsito em dois pontos durante a operação, que mobilizou cerca de 40 agentes. Algemados, os bandidos presos eram colocados deitados no asfalto.

Moradora de um edifício na rua, a designer Roberta Gafree, de 30 anos, acompanhou a perseguição pela janela.

- Eu estava no quarto e escutei uma gritaria. Ao chegar à varanda, vi muitos homens de preto correndo com pistolas e fuzis nas mãos. Um deles parou um carro e rendeu um ocupante. Nesse momento, já havia dois homens algemados sentados no chão. Aos poucos, foram aparecendo outros, também com algemas.

Outra moradora, a estudante Carolina Castro, também presenciou, da janela de casa, o desespero de pedestres e motoristas.

- Ouvi gritos de "perdeu, perdeu!". Vi os homens armados com fuzis e a rua fechada. Motoristas abandonaram seus carros e saíram correndo, gritando, desesperados. Parecia ser um arrastão. Logo depois, surgiram policiais à paisana, usando shorts e chinelos.

A jornalista Bárbara Lima foi outra que se assustou com a operação, ao chegar à creche onde o filho de 2 anos estuda, também na Arthur Araripe. Inicialmente, ela imaginou que se tratava de um assalto.

- Parei na porta da creche para falar ao celular, e um pedestre me avisou que estava ocorrendo alguma coisa, me empurrou e mandou entrar na creche. Havia vários policiais na rua, e um funcionário contou que alguns deles estavam agachados e deitados no chão. Fiquei com meu filho na creche até passar a confusão.

A jornalista Lilian Saback levou um grande susto ao se deparar com homens armados quando passava pela Rua Arthur Araripe:

- Eu passava pela Rua Arthur Araripe quando, do carro que estava à minha frente, desceram homens armados com fuzis. Não havia identificação de que eram policiais. Fiquei em pânico, sem saber do que se tratava. Logo em seguida, eles gritaram que eram da Polícia Federal. Pelo retrovisor, vi que renderam os ocupantes de um carro que estava logo atrás. Eram, provavelmente, os bandidos que foram presos. Fiquei muito nervosa, com medo de tiroteio e acabei caindo em pranto. Parecia cena de filme.

Clientes do Shopping da Gávea contaram ter visto policiais à paisana, armados, entrando no estabelecimento. Moradores do bairro relataram que dois helicópteros sobrevoavam, à baixa altura, a Praça Santos Dumont no momento da operação.