Título: Protestos marcam as eleições na Nicarágua
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Fonte: O Globo, 07/11/2011, O Mundo, p. 28
Daniel Ortega é favorito na luta pelo 3º mandato consecutivo; OEA denuncia obstáculos a observadores internacionais
MANÁGUA. O domingo de votação para escolher o presidente da Nicarágua foi tenso no país. O dia foi marcado por protestos, principalmente no norte, contra a Frente Sandinista de Libertação Nacional, o partido do presidente esquerdista, Daniel Ortega. O presidente disputou a primeira reeleição consecutiva de um governante desde que a guerrilha sandinista deu fim à ditadura no país, em 1979. A confusão começou já no sábado, quando quinze pessoas ficaram feridas, algumas a balas, durante distúrbios em Sébaco, a 80 quilômetros da capital Manágua, na província de Matagalpa. De acordo com o Corpo de Bombeiros da cidade, os conflitos se espalharam ainda para a cidade vizinha de Dario. Entre os feridos, estariam policiais.
O chefe da missão eleitoral da OEA (Organização dos Estados Americanos), o argentino Dante Caputo, denunciou obstáculos ao trabalho dos observadores internacionais.
- Nossa gente foi impedida de estar no momento preciso onde deveria estar e isso não é remediável e alterará nossa capacidade de trabalho - disse. - Estamos navegando sem radar - explicou, ao afirmar que foi impedido o acesso a dez centros de votação. A OEA está no país junto com uma missão da União Europeia para acompanhar as eleições.
Os manifestantes ainda apontam diversas irregularidades nas eleições, como o atraso do Conselho Supremo Eleitoral (CSE) para entregar carteiras de identificação a fiscais da oposição, sem as quais não poderiam votar. Três veículos do CSE foram queimados no sábado. O presidente do Conselho Supremo Eleitoral, Roberto Rivas, culpou o Partido Liberal Independente, principal concorrente de Ortega, pelo atraso - eles teriam mudado na última hora a lista de nove mil fiscais. Rivas anunciou ainda que a Polícia Nacional prendeu várias pessoas, sem especificar números, durante os protestos por "tentativa de colapso do sistema eleitoral."
Opositores e observadores eleitorais vinham questionando ainda a legitimidade da candidatura de Daniel Ortega, só possível devido a uma alteração na Constituição que antes não permitia a reeleição consecutiva.
O chefe dos observadores eleitorais da União Europeia, Luis Yáñez, disse à agência de notícias Reuters que o pleito "é doente de um defeito de origem, que não deveria ter ocorrido".
Oposição fez campanha fraca, focada em acusações
Ontem, as urnas foram abertas às 7 horas da manhã (11h em Brasília) convocando cerca de 3,4 milhões de nicaraguenses a votar para escolher o governo dos próximos cinco anos, 90 deputados e 20 membros do parlamento. Longas filas de eleitores foram formadas desde a madrugada nos arredores de muitos dos mais de 4.200 centros eleitorais. Pesquisas apontavam uma vitória relativamente fácil de Daniel Ortega, de 65 anos, que chegou ao poder no país pela primeira vez em 1980 como o líder da revolução sandinista, perdeu as eleições em 1990 e voltou em 2006.
O principal concorrente de Daniel Ortega era o empresário e locutor de rádio Fabio Gadea, de 79 anos, do Partido Liberal Independente (PLI). Mas, nas pesquisas, Ortega aparecia com 48% das intenções de voto e, para evitar um segundo turno, precisaria de 40% do total dos votos, além de estar mais de 15 pontos à frente do segundo colocado (Ortega aparecia 18 pontos à frente, nas pesquisas).
A campanha de Fabio Gadea foi considerada fraca. Manteve-se mais focada em denunciar abusos de poder do governo do que em oferecer boas propostas para os cidadãos. Seu partido, o PLI, ainda permaneceu dividido durante todo o processo eleitoral. Em um distante terceiro lugar, as pesquisas indicavam o ex-presidente Arnoldo Alemán.
Já Ortega contou com diversos trunfos para alcançar o favoritismo, sobretudo a melhoria da situação econômica nos últimos dois anos, com um crescimento do PIB ligeiramente superior a 4%, graças ao boom nas exportações, especialmente de açúcar e café. Também teve papel fundamental na campanha o presidente venezuelano, Hugo Chávez, que apoiou programas sociais, permitindo o desenvolvimento de uma política de assistência aos pobres. Além dos investimentos em estradas e energia elétrica, a ajuda financeira de Chávez fez, por exemplo, com que o tempo de espera nos hospitais fosse reduzido e permitiu ainda a entrega de folhas de zinco para proteger as famílias mais pobres das chuvas.