Título: Ortega caminha para uma polêmica reeleição
Autor: Azevedo, Cristina
Fonte: O Globo, 06/11/2011, O Mundo, p. 35
Embalado por programas sociais, presidente da Nicarágua é favorito em pleito sem observadores nacionais independentes
RIO. Ex-guerrilheiro sandinista e empresário, Daniel Ortega se reinventou em seu caminho para comandar a Nicarágua pela terceira vez. Nem por isso deixou de ser polêmico. As cédulas que os nicaraguenses depositarão hoje nas urnas vão carregadas de controvérsias: acusações de inconstitucionalidade sobre a reeleição; falta de observadores nacionais; e denúncias sobre a dificuldade em obter o título eleitoral em áreas opositoras. Certeza, praticamente uma só: com 48% das intenções de votos, segundo a pesquisa CID-Gallup, o líder da Frente Sandinista de Libertação Nacional deve se reeleger no primeiro turno.
Pode-se dizer que Ortega teve a ajuda da oposição, que mais uma vez se dividiu. O ex-deputado Fabio Gadea, de 79 anos - "Um velho de ideias novas", segundo o slogan - concentra 30% das intenções de voto para a Aliança Partido Liberal Independente. Já o ex-presidente Arnoldo Alemán, que chegou a ser condenado a 20 anos de prisão por corrupção, leva de 10% a 11% para o Partido Liberal Constitucionalista. Misturá-los seria como tentar juntar água e óleo.
Boa parte da oposição não perdoa Alemán pelo acordo com Ortega que permitiu a eleição do líder sandinista em 2006. Até então, um candidato precisava de 45% dos votos para vencer no primeiro turno. Mas o acordo baixou o índice para 35%, com cinco pontos percentuais de diferença para o segundo candidato. Ortega foi eleito com 38% e Alemán, em troca, se livrou da prisão, dizem os nicaraguenses.
- A grande fragmentação da oposição é a principal razão para o favoritismo de Ortega - explica ao GLOBO por telefone, de Manágua, o analista político Félix Maradiaga. - Além disso, Ortega avançou na conquista dos independentes, que tradicionalmente votam contra ele. E há o investimento milionário em programas sociais com a ajuda da Venezuela.
Programas como o Fome Zero; o Plano Teto, que entrega folhas de zinco para proteger as casas das chuvas; ou o Bônus Produtivo, que dá uma vaca ou galinhas a camponesas sozinhas, permitiram ao ex-guerrilheiro avançar em outra área onde sempre perdeu votos: o campo. E a aproximação com o cardeal Miguel Obando já na campanha eleitoral passada, num acordo que ajudou a derrubar a lei que permitia o aborto em caso de risco de vida da mãe, rendeu-lhe o voto católico: fotos de Ortega e da mulher, Rosario Murillo, em missas são amplamente divulgadas, bem de acordo com seu "Plano de governo socialista, solidário e cristão".
- O presidente estabeleceu uma política com alto conteúdo assistencialista. A Nicarágua tem quase 50% da população vivendo na pobreza, e alguns programas permitiram melhorar seu estado de sobrevivência - explica Raúl Obregón, gerente da M&R Consultores, cuja última pesquisa dá 58,3% de intenções de votos para Ortega.
Mas as denúncias são muitas. Em Siuna, região onde a oposição tem maioria, os moradores reclamam de problemas burocráticos e de longas filas para tirar o título, levando muitos a desistir. Após resistir, o governo permitiu a presença de observadores da Organização de Estados Americanos (OEA) e da União Europeia, mas o acesso foi vetado a observadores nacionais independentes. Há apenas os fiscais do Conselho Nacional de Universidades, considerado pró-governo. A própria candidatura é controvertida. Pela Constituição, a reeleição é proibida. Mas um parecer da Suprema Corte, dominada por sandinistas, deu sinal verde a Ortega.
- Esse é um mandato marcado pela ruptura das leis - afirmou Maradiaga.
A perspectiva é que o governo, que hoje não tem maioria na Assembleia, eleja 50 deputados. Com 56, teria maioria qualificada, o que poderia abrir caminho a uma reforma constitucional que aumente os poderes do presidente, como teme a oposição.
- Se ele fizer uma reforma que atente contra as liberdades, os independentes que devem lhe dar a vitória lhe virarão as costas - adverte Obregón.