Título: Governo grego vence por um triz
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Fonte: O Globo, 05/11/2011, Economia, p. 31

Em votação apertada, Parlamento aprova voto de confiança e premier promete coalizão

ATENAS

Depois de uma semana de forte tensão, o premier grego, George Papandreou, respirou ontem aliviado: ele obteve o voto de confiança do Parlamento, depois que todos os 153 deputados de seu partido, o Pasok, votaram a favor, garantindo a maioria. Houve 145 votos contra, de acordo com o jornal "Athens News". Antes da votação, Papandreou fez um discurso, no qual prometeu começar hoje mesmo negociações para um governo de coalizão - e sinalizou que ele pode ou não permanecer como primeiro-ministro, o que significa que a crise política da Grécia ainda não chegou ao fim.

- A última coisa com a qual me preocupo é o meu cargo. Nem me importo de não ser reeleito. Chegou a hora de fazer um novo esforço. Nunca pensei na política como uma profissão - disse Papandreou antes de a votação começar.

O principal partido de oposição, Nova Democracia, já havia afirmado que só participaria de um governo de coalizão se Papandreou deixasse seu cargo.

A votação, que começara à meia-noite (hora local, 20h em Brasília), terminou pouco antes de 1h. Na quinta-feira, vários deputados haviam afirmado que rejeitariam o voto de confiança, o que não ocorreu.

Com o governo de coalizão, Papandreou espera abrir caminho para que o país receba um novo pacote de ajuda da União Europeia (UE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), de 130 bilhões.

O premier prometeu procurar hoje o presidente grego, Karolos Papoulias, para discutir a formação desse novo governo. O ministro de Finanças, Evangelos Venizelos, afirmou que o novo governo deve durar pelo menos até o fim de fevereiro.

- Vou visitar o presidente amanhã (hoje) para informá-lo de minhas intenções e de que estou negociando com todos os partidos um amplo governo de coalizão, bem como para acertar objetivos comuns, um cronograma e até quem ficará à frente da coalizão - prometeu Papandreou aos parlamentares.

Eleições após 2º pacote de ajuda

Fontes afirmam que o mais cotado para liderar esse governo de coalizão é o próprio Venizelos - que na quinta-feira liderou uma revolta de ministros e juntou-se à pressão da UE para que Papandreou desistisse de convocar um referendo popular sobre o pacote de austeridade.

A proposta de referendo, anunciada segunda-feira por Papandreou, surpreendeu e irritou os líderes europeus. Estes ameaçaram suspender a liberação da sexta parcela do socorro acertado no ano passado, de 110 bilhões, e afirmaram que o referendo, na essência, seria se a Grécia queria ou não continuar no euro. A chanceler alemã, Angela Merkel, deixou claro a Papandreou que a estabilização do euro tinha primazia sobre a ajuda à Grécia. A Comissão Europeia, o órgão executivo da UE, alertou, por sua vez, que sair da zona do euro significaria deixar a própria União Europeia.

De acordo com fontes citadas pela agência de notícias Reuters, o novo governo convocaria eleições antecipadas assim que o segundo pacote de resgate estiver assegurado.

Durante a votação, o líder do Nova Democracia, Antonis Samaras, voltou a pedir a realização imediata de novas eleições. Mas admitiu dar apoio ao novo pacote de ajuda, que inclui uma redução de 50% no valor dos papéis da dívida grega em mãos de credores privados.

- As máscaras caíram, Papandreou rejeitou todas as nossas propostas. A responsabilidade que ele carrega é enorme. Não há espaço para cooperação, eleições já - afirmou Samaras.

O jornal grego "Athens News" afirmou, citando fontes, que o Nova Democracia vai votar a favor do acordo fechado com a UE e os credores no dia 27 de outubro.

Papandreou alfinetou a oposição em seu discurso, afirmando que o governo estava lutando sozinho contra os problemas do país. Admitiu ter cometido erros, mas afirmou que os do governo anterior foram muito maiores:

- Coube a mim catar os pedaços.

Moody"s rebaixa nota do Chipre

Mas a incerteza que cerca a Grécia já está afetando seus vizinhos. Ontem a agência de classificação de risco Moody"s cortou a nota de Chipre em dois graus, para "Baa3", logo acima do nível junk (de alto risco de calote). A agência afirmou que pode haver um novo rebaixamento por causa da pesada exposição dos bancos à dívida grega.

Segundo a Moody"s, as perdas dos bancos cipriotas mais que dobrou com o acerto no mês passado, de um calote de 50% no valor dos títulos da dívida grega em mãos de credores privados. Isso, afirmou a agência, obrigará o governo a injetar cerca de 1 bilhão nos bancos.

DILMA RECLAMA DO CÂMBIO CHINÊS E NÃO DARÁ DINHEIRO A FUNDO EUROPEU, na página 32