Título: Lucro da Petrobras despenca 42%
Autor: Ordoñez, Ramona; Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 12/11/2011, Economia, p. 25

Afetado pelo dólar, ganho trimestral de R$6,3 bi foi o menor desde 2009, mas ficou acima das projeções

A forte valorização do dólar frente ao real representou um baque igualmente forte nos resultados da Petrobras no terceiro trimestre deste ano. A companhia teve um lucro líquido de julho a setembro de R$6,3 bilhões, 42% menor em relação aos R$10,9 bilhões apurados no segundo trimestre do ano. No acumulado de janeiro a setembro, a empresa acumula um lucro líquido de R$27,2 bilhões, 15% maior do que os R$24,5 bilhões em igual período do ano passado. Esse foi o menor resultado obtido pela Petrobras em um trimestre desde o início de 2009 - ou seja, há dois anos e seis meses.

O diretor financeiro da estatal, Almir Barbassa, disse que a valorização da moeda americana no terceiro trimestre do ano, de cerca de 19%, teve um efeito negativo de R$6,5 bilhões no resultado do período. Mas, como nos dois primeiros trimestres do ano ocorreu uma valorização do real, no acumulado de 2011 as perdas da Petrobras com o câmbio caem para R$3 bilhões.

Barbassa destacou que, apesar de o câmbio ter afetado os resultados financeiros, os resultados operacionais da companhia estão bons.

- A geração de caixa continuou estável, não foi afetada pelas variações cambiais que afetam o resultado líquido. A geração de caixa, que é muito importante para implementar nosso plano de negócios, continuou no mesmo ritmo e até cresceu - afirmou Barbassa.

Cresce consumo de combustíveis

No terceiro trimestre, a receita líquida da Petrobras, impulsionada pelo forte crescimento do consumo de derivados, atingiu R$64,1 bilhões, valor 2% maior do que os R$61,4 bilhões obtidos no segundo trimestre do ano.

O impacto da forte desvalorização do real frente ao dólar foi grande no terceiro trimestre do ano porque, do endividamento total da companhia de R$146,8 bilhões, cerca de 70% ou R$51 bilhões, são recursos que sofrem com o efeito câmbio.

O crescimento do consumo de combustíveis que vem ocorrendo este ano contribuiu para evitar uma redução maior no lucro no terceiro trimestre. No acumulado de janeiro a setembro, a venda de combustíveis cresceu 9%, totalizando 2,09 milhões de barris por dia, contra 1,9 milhão de barris diários em igual período em 2010. No terceiro trimestre, as vendas cresceram 4%, em relação ao trimestre anterior.

Ao mesmo tempo, a produção nacional de petróleo cresceu pouco no período, apenas 1%, com um total de 2,01 milhões de barris, contra 1,9 milhão de barris por dia, de janeiro a setembro de 2010. Nos nove primeiros meses deste ano, a Petrobras investiu R$50,8 bilhões, uma redução de 10% ante os R$58,6 bilhões em igual período de 2010. Barbassa destacou, contudo, que este ano a Petrobras deverá investir os R$75 bilhões previstos.

No terceiro trimestre do ano, os preços de venda dos combustíveis da Petrobras foram de R$155,78 o barril, contra os R$192,65 praticados no mercado americano.

Embora bastante afetado pelo câmbio, o lucro veio acima do esperado por analistas, que previam ganhos de R$4,8 bilhões.

De acordo com Lucas Brendler, analista de investimento Geração Futuro, o aumento de 4% no volume de vendas de derivados compensou o efeito cambial sobre o endividamento. Analistas destacaram a alta de 9% do diesel.

- O lucro veio fraco, influenciado pelos 19% da valorização do dólar frente ao real. Mas isso já foi recuperado ao longo desse quarto trimestre, com a queda na cotação da moeda americana. O mercado interno segue aquecido, com vendas em patamares elevados - disse Brendler.

Marcos Saravalle, analista da Coinvalores, destacou que o mercado já esperava um ganho fraco no trimestre. Especialistas destacaram ainda que os ganhos foram, em parte, impulsionados pela redução no número de poços sem viabilidade econômica e por indenização de processos arbitrais. Um outro analista, que não quis se identificar, disse que o lucro, acima do esperado, veio também pelo aumento de 12% nas margens de comercialização de combustíveis.

Ações fecham em alta de até 2%

- A Petrobras melhorou operacionalmente neste terceiro trimestre. Com isso, o resultado financeiro, que foi afetado pelo dólar alto no período, acabou vindo menos pior que o esperado - disse um outro analista, que também não quis se identificar.

Com o aumento nos preços do etanol (álcool) no mercado interno, analistas destacaram ainda que as vendas de gasolina avançaram 21% entre janeiro e setembro.

O valor de mercado da empresa encerrou o pregão de ontem em R$300,523 bilhões - queda de 20,97% no ano. Para efeito de comparação, no período, a Vale viu seu valor cair 17,45%, para R$227,026 bilhões.

- Assim como todas as empresas, a Petrobras vem sofrendo com a crise internacional. O fato de o valor da estatal estar em queda maior se deve ainda à forte ingerência política da companhia, como o controle do preço da gasolina no mercado interno para não afetar os índices de inflação - disse o economista Fernando Soares, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Na Bolsa de Valores de São Paulo, as ações preferenciais (PN, sem direito a voto) encerraram em alta de 2,09%. Os papéis ordinários (ON, com voto) fecharam com avanço de 1,49%.