Título: Pilares da cidadania
Autor:
Fonte: O Globo, 13/11/2011, Opinião, p. 6

Resgatar a favela do domínio do tráfico é uma noção básica de cidadania. Que só agora o Rio de Janeiro comece a levar a sério esse compromisso é um sinal de como estava atrasada a nossa evolução social, comprometida por uma herança escravista.

Não achávamos tão estranho assim que uma parte substancial da população carioca tivesse de se submeter diariamente ao domínio territorial de bandidos. Tivemos um governador, décadas atrás, que lavou as mãos enquanto o tráfico lançava os seus tentáculos sobre os morros. De onde vinha aquela ideia de que a polícia não podia subir nos morros? De algum obscuro conceito de luta de classes? Foi o desastre que se viu, e de que só agora vamos tomando distância.

Cidadania não se consegue de graça. É fruto de esforço, e de muito sofrimento.

Alguns países começaram isso há muitos séculos. Foi o caso da Inglaterra, que em plena Idade Média já arrancava do rei João a Magna Carta - documento fundador da sociedade inglesa, estabelecendo limites para a voracidade da Coroa.

A França foi muito mais lenta nesse caminho, e brincou com o absolutismo, até que uma revolução sangrenta pusesse abaixo todas as suas Bastilhas. A Revolução Francesa tornou-se um paradigma de modernidade, com a sua tríade sonora: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Os Estados Unidos, aproveitando o ambiente de um novo mundo, escolheram um caminho ainda mais promissor: a construção política feita de baixo para cima, começando naqueles colonos ingleses que ali tinham desembarcando levando a Bíblia numa mão e a espada na outra. Construído de baixo para cima, fruto da união de entidades independentes - as antigas colônias -, o estado americano nunca teve o peso do estado português, ou do espanhol. Isso produziu um dinamismo que projetou os Estados Unidos para a linha de frente da cultura ocidental.

Mas nem todos seguiram essa rota. Houve as tentações totalitárias que ensanguentaram o século XX. Houve o fracasso da experiência russa, com a consequência de que o país, agora, parece infinitamente aquém das suas possibilidades.

E, menos visível, há o cacoete caudilhista que infesta a América Latina. Quando isso acontece, temos o "Estado benfeitor" como biombo para o poder pessoal. É a Venezuela de Chávez; e a Argentina dos Kirchner não está muito distante disso.

No Brasil moderno, a cidadania esteve sufocada durante o ciclo militar. Levantou a cabeça no período Fernando Henrique, graças não só à normalidade institucional como às reformas econômicas que puseram na mão do pobre uma moeda real. Novos avanços foram obtidos no ciclo lulista, graças a uma visão social que tirou milhões de brasileiros da pobreza.

Mas esses avanços não são um ponto de chegada, e ainda há fantasmas espreitando nas esquinas. Por exemplo, a inépcia do sistema educacional, que cria uma população mais sensível a pregações demagógicas. Ou a ideia de que o Estado é a grande fonte de benesses, o terreno firme da cidadania. Por trás dessa imensa fachada, prolifera a corrupção. Contra ela, é preciso retomar e reforçar o ideal republicano.