Título: Negromonte chora e se queixa de preconceito
Autor: Talento, Biaggio
Fonte: O Globo, 26/11/2011, O País, p. 16
Envolvido em denúncia de fraude, ministro das Cidades fala em fogo amigo e perseguição por ser nordestino
SALVADOR. A cerimônia de adesão de 55 prefeituras baianas ao programa Minha Casa Minha Vida 2, realizada ontem, em Salvador, transformou-se em ato público de desagravo e solidariedade ao ministro das Cidades, Mário Negromonte, cuja pasta está sendo alvo de denúncias de irregularidades. O ministro chegou a chorar ao agradecer o apoio de políticos baianos, durante seu discurso na sede da União das Prefeituras da Bahia (UPB). Logo depois, em entrevista, disse que não fica "de joelhos" por cargos, assegurando que pediria demissão se sentisse algum tipo de desconforto por parte da presidente Dilma Rousseff em relação a ele.
Reportagem do jornal "O Estado de S. Paulo" informou que o Ministério das Cidades fraudou um parecer para respaldar acordo político que mudou um projeto de mobilidade em Cuiabá. Em vez de uma linha rápida de ônibus (BRT), a alteração permitiu, contra parecer técnico, a contratação de um Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), elevando o preço da obra de R$700 milhões para R$1,2 bilhão.
Negromonte afirmou que determinou abertura de sindicância para apurar eventuais irregularidades.
- Dei conhecimento à CGU (Controladoria Geral da União) e ao Ministério Público. Disponibilizei toda a documentação original - disse o ministro, descartando qualquer demissão por enquanto: - A sindicância vai apontar se houve falha e erro do funcionário público. Não vou passar a mão na cabeça de ninguém. Eu não tinha conhecimento, não dei aval nem a doutor Cássio (Vianna, chefe de gabinete do Ministério das Cidades), que é um técnico competente, sério, honrado.
Negromonte alegou que parte das denúncias contra ele é de "fogo amigo" do próprio partido ou de partidos da base aliada com interesse no ministério.
- Só digo uma coisa: não estou preocupado em ficar ou sair, mas em exercer um bom trabalho - afirmou, dizendo que a pasta das Cidades é cobiçada por conta do volume de verbas de programas importantes que administra: - O do Minha Casa Minha Vida é de R$170 bilhões, o de saneamento básico, R$50 bilhões, e lá a gente contraria muitos interesses. Lá, não temos compromissos com erros. Aqui e acolá tem meia dúzia de insatisfeitos na bancada.
Segundo o ministro, existe discriminação em relação à presidente Dilma, por ser a primeira mulher a chegar ao mais alto cargo do poder no Brasil, além de preconceito com relação a ele, que é nordestino. O ministro afirmou que dá valor mesmo ao mandato de deputado federal para o qual foi eleito:
- São 170 mil pessoas aqui, atrás de mim, que me dão forças para, neste momento, poder suplantar (as dificuldades).
O governador Jaques Wagner defendeu veementemente o ministro e lamentou o que chamou de ataques e acusações sem provas. Em um momento, chegou a brincar com o fato de que especulações sobre reforma ministerial sempre incluem os baianos Negromonte e Afonso Florence (Desenvolvimento Agrário).
- O pessoal fica com ciúme da Bahia. Diz que a gente fez muito ministro e toda hora fala que um baiano vai cair. Mas, se Deus quiser, a energia baiana vai segurar todos vocês para continuarem trabalhando pelo Brasil e pela Bahia - disse Wagner.
O governador disse ter conversado com Dilma e que ela teria lhe assegurado "estar tudo bem" em relação a Negromonte. O próprio ministro contou ter recebido um telefonema tranquilizador do ministro Gilberto Carvalho.
- Ele me disse: "Olha, fica tranquilo que a presidente da República conhece todo o trâmite" - disse Negromonte.
Jaques Wagner disse não reconhecer em "nenhuma instituição um código de ética presumivelmente melhor do que o dos políticos". E exortou mudanças para separar o joio do trigo:
- Se a política não está bem, vamos melhorar a política, melhorar os partidos políticos, mudar a lei, fazer coisas que melhorem a política. Agora, não adianta ficar jogando pedra na política, porque a sociedade sem política é ditadura. Não me parece que ninguém concorde com a ditadura.