Título: Máquinas a todo vapor
Autor: Bancillon, Deco
Fonte: Correio Braziliense, 01/09/2009, Economia, p. 17
Alta de 2,2% na produção em julho, a sétima consecutiva, deve-se mais à demanda do mercado interno do que aos pedidos do exterior
A indústria brasileira dá sinais cada vez mais consistentes de que venceu o período mais agudo da crise financeira mundial. A recuperação ocorre nos mais diversos segmentos, com o uso da força máxima de produção e aumento das vendas para o mercado interno, que foi o grande responsável pela redução do volume de crédito e a retração da demanda externa.
A Pesquisa Industrial Mensal Produção Física, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que, em julho, o setor teve incremento na produção de 2,2%, a sétima alta consecutiva e o melhor resultado desde fevereiro deste ano. Ante julho de 2008, houve queda de 9,9%, indicando que a retomada, apesar de consistente, se dá sob uma base de cálculo (volume de produção) bem menor que a do período de pré-crise.
¿Ainda existem algumas distorções na recuperação na indústria. Setores ligados ao mercado externo ainda estão bastante pessimistas¿, diz o economista chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal.
Essa análise é endossada pelo IBGE, que destaca a melhora em 23 dos 27 ramos industriais pesquisados. No sétimo mês do ano, a produção de bens de capital cresceu 8,9%. Entre abril e julho, a alta acumulada foi de 11,6%.
Com uma demanda crescente e constante, o setor industrial, que havia colocado o pé no freio desde o início da crise, decidiu acelerar a produção. O volume de estoques, antes elevado devido ao ciclo de ajustes nas margens, caiu à metade.
Novo ciclo
Hoje, a expectativa de utilização dos estoques, que no início do ano ultrapassavam os 20%, está em torno de 12%. No período pré-crise, o volume era de 4%. ¿Boa parte desse crescimento, que se traduz com a redução dos estoques, é sinal que o ciclo de ajustes nos estoques no setor industrial terminou¿, avalia o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa.
Em todo o país, fábricas voltaram a produzir e a diminuir ociosidade da capacidade instalada. Dados do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS) mostraram que, até primeiro trimestre, estavam em desuso seis alto fornos de um total de 14. Em julho, apenas dois alto continuavam desligados. Resultado: a metalurgia básica registrou avanço de 4,5% na produção em julho, o quarto avanço consecutivo de um dos setores que mais sofreram com a crise.
A retomada da produção resulta também em maior capacidade do país para enfrentar a concorrência com produtos importados e de ampliar as exportações. ¿O setor externo é hoje o nosso maior desafio¿, avalia o presidente da Associação Nacional dos Veículos Automotores (Anfavea), Jackson Schneider. ¿Competir lá fora depende de termos um produto atual, moderno, mas também de termos uma estrutura de custos adequada. O Brasil mostrou reação rápida e contundente na retomada de decisões que deram resultado. Precisamos avançar um pouco mais¿, completou.
Brasileiros estão otimistas
Em julho último, o índice de confiança na indústria brasileira registrou 89,3 pontos contra 64,5 pontos do setor fabril europeu, prejudicado pela falta de unicidade entre os países do velho continente. O aumento da confiança do empresariado nacional na retomada da indústrial foi antecipado ao Correio pela Fundação Getulio Vargas (FGV). O levantamento, com base em dados colhidos nos países da União Europeia e Brasil, mostra que o setor fabril nacional está em vantagem na estimativa de recuperação desde o estouro da crise mundial, em setembro de 2008.
¿Lá (Europa), como são muitos os países afetados, fica mais difícil se fazer uma política anticíclica, como foi feito no Brasil¿, explica o economista Aloisio Campelo, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV. A retomada da confiança na indústria brasileira só é menor do que a da norte-americana, teve alta de 26,9 no mesmo período.
De janeiro a julho, o índice de confiança da indústria avançou 21,7 pontos no Brasil, contra uma alta de 3,8 pontos da União Europeia. (DB)