Título: As trincheiras de Bariloche
Autor: Saraiva, José Flávio Sombra
Fonte: Correio Braziliense, 01/09/2009, Opinião, p. 21

Ph.D. pela Universidade de Birmingham (Inglaterra), é professor titular em relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e diretor-geral do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (Ibri)

As trincheiras seguem insuportáveis. Sem movimento de tropa, sem guerra de mobilização, os corredores das trincheiras reduzem a capacidade dos generais de ver o mundo. À espera do inimigo que não chega, os entrincheirados inventam inimigos, impacientados pelo tédio, embora estejam ansiosos pelo início do horror da guerra. Veem foguetes e bombas quando há apenas vaga-lumes e ratos a corroer as botinas.

Esse é o balanço da reunião dos líderes sul-americanos em Bariloche. A escalada de militarização dos conflitos e diferenças na América do Sul (o fato objetivo) é disfarçada pelos discursos de ocasião. Mas estão quase todos cegos em suas trincheiras. A Colômbia de Uribe é o pretexto da vez.

As matrizes das dificuldades encontradas para frear a escalada de agressões e tensões que se acumulam são de ordem histórica, mas possuem também causalidades mais próximas. As anteriores se vinculam às formações dos Estados nacionais na América do Sul que, ao contrário do que afirma a historiografia da resolução das controvérsias pelo diálogo, foram de guerras sangrentas de afirmação. Nesse sentido, não há novidade no presente.

As novas causalidades derivam da tensão entre as visões concorrentes acerca dos processos de cooperação e integração na região. Por que não há nada de novo front? Porque as posições estão definidas, os objetivos estão traçados e a Unasul tem pouco a fazer nesse caso. Os Andes exaltados exibem o discurso ultrapassado do antiamericanismo e se recusam a buscar saídas para o diálogo. A Colômbia, quando nenhum país da América do Sul se esforçou por colaborar com sua estabilidade interna, buscou ajuda mais longe. E não deixará de continuar a buscar tal ajuda uma vez que precisa ganhar a guerra interna, ainda que ao custo da redução da sua soberania. É uma opção colombiana que poucos podem alterar hoje.

O Brasil está no meio. Não temos política externa antiamericana e não podemos ter. Mas também não queremos ingerência estrangeira em espaço de grande preocupação de segurança nacional e de inflexão dos capitais e empresas brasileiras. Exportamos quase metade de nossos produtos industriais de valor agregado para a região, ainda que tenhamos nos tornado, em parte, um país marcado por exportações de médio e baixo valor agregado.

A América do Sul é e seguirá sendo área de grande interesse do Brasil. A política em curso para a região é congruente com o interesse nacional, o acumulado histórico da diplomacia brasileira e os desafios do momento. Cuidar da fronteira ocidental do Brasil é necessidade prática e objetiva, além de decorrer dos valores da integração, consagrados no texto constitucional. É matéria de Estado e merece a noção de projeto estratégico de longo prazo. Um país com tantas fronteiras territoriais em convívio de paz e cooperação é um ganho histórico dos antepassados a preservar no presente.

Nossas fronteiras jamais foram fáceis, como em quase nenhum lugar do globo. Nesse sentido, está adequada a posição do Brasil no discurso conciliador na reunião de cúpula da Unasul em Bariloche. Não há novidade na posição brasileira. Mas devemos reconhecer que os choques de interesses, valores e ideias aumentaram na região. O Brasil, mesmo conferindo tratamento construtivo aos problemas que emergem das fricções, vê reduzido seu lençol de proteção na América do Sul.

Mas apesar das dificuldades do front, da ampliação da militarização das tensões, o Brasil necessita seguir na América do Sul com o seu senso de pedagogia. Se quisermos ser mais que um mero segmento indiferenciado do mercado internacional, sem soberania política e capacidade decisória própria, deixemos os Andes em chamas. O Brasil oferece, ao contrário da lógica das trincheiras, o cardápio da integração, útil à formação de região diferenciada. O Brasil do futuro não nos perdoaria se tomássemos posições nas insuportáveis trincheiras do front.