Título: A República dos vice-ministros
Autor: Alvarez, Regina; Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 04/12/2011, O País, p. 15

Dilma despacha diretamente com secretários-executivos de várias pastas, ignorando seus titulares

BRASÍLIA. Impedida de escolher o Ministério de seus sonhos no começo do governo, por pressões dos partidos aliados e do ex-presidente Lula, a presidente Dilma Rousseff buscou um atalho e criou a "República dos vice-ministros". Com perfil técnico e estilo centralizador, Dilma despacha diretamente com secretários-executivos de várias pastas, tomando decisões à revelia dos ministros. Em pelo menos meia dúzia de ministérios, a relação mais constante da presidente é com os subs dos ministros. Essa prática tem criado constrangimentos e estimulado disputas de poder nos bastidores, o que, na visão de interlocutores com acesso ao Planalto, prejudica o objetivo de Dilma de tornar o governo mais ágil e eficiente.

Um dos casos mais complicados é o do Ministério da Fazenda, onde o ministro Guido Mantega e o secretário-executivo, Nelson Barbosa, entraram em rota de colisão. Incomodado com o acesso direto de Barbosa à presidente, Mantega pediu a Dilma que não despache mais a sós com o seu secretário-executivo. E, no dia a dia da Fazenda, tem feito vários movimentos para isolar Nelson Barbosa.

Há poucos dias, após O GLOBO publicar declarações de Barbosa favoráveis a mudanças na Lei de Responsabilidade Fiscal para acomodar o aumento de despesas de pessoal decorrente da criação do novo regime de Previdência Complementar para os servidores públicos, Mantega fez questão de informar ao jornal que nada mudaria na lei.

Dilma tem relação muito próxima com Nelson Barbosa desde o começo do governo Lula. Gostaria até de tê-lo indicado para comandar a Fazenda, mas cedeu às pressões de Lula em favor de Mantega e também avaliou que mudar o comando do Banco Central e da Fazenda, ao mesmo tempo, causaria desconfiança no mercado. Segundo fontes com acesso à presidente, mesmo com a reclamação de Mantega, Dilma mantém canal direto com Barbosa, só que agora de forma mais discreta.

A preferência de Dilma pelos secretários-executivos - quando estes são técnicos de sua confiança - estende-se a outras áreas. Mesmo na Casa Civil, o ministério que coordena os demais, a presidente coloca em prática a sua forma heterodoxa de governar. O secretário-executivo Beto Vasconcelos é mais demandado que a ministra Gleisi Hoffmann.

Na noite da última quarta-feira, por exemplo, quando a Comissão de Ética Pública da Presidência recomendou a demissão do ministro Carlos Lupi, Beto Vasconcelos foi chamado por Dilma para acompanhá-la até o Palácio da Alvorada e discutir os aspectos jurídicos da situação, sem a presença de Gleisi.

Dilma estabeleceu uma relação semelhante, de proximidade e confiança, com o atual ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, na gestão do agora senador Alfredo Nascimento (PR-AM). Este é o exemplo que está na cabeça dos ministros incomodados com o acesso direto de seus vices à presidente.

No Ministério de Minas e Energia, embora Dilma tenha uma boa relação com o ministro Edison Lobão, o secretário-executivo, Márcio Zimmermann, também despacha diretamente com a presidente. Ele a acompanhou nas duas últimas viagens ao exterior. Na sexta, enquanto Zimmermann estava em Caracas com Dilma, Lobão cumpria agenda periférica em Manaus.

Mas este é realmente um caso à parte, porque o ministro das Minas e Energia conseguiu conquistar a simpatia de Dilma e hoje é um dos seus mais próximos interlocutores. Na visão do Planalto, Lobão foi hábil ao aceitar as regras do jogo desde quando Dilma chefiava a Casa Civil.

A habilidade de Lobão para "se dar bem" na "República dos vice-ministros" também se aplica ao novo ministro do Turismo, Gastão Vieira. Antes de assumir, Vieira consultou a presidente Dilma sobre o nome que deveria nomear para o segundo cargo do ministério. A presidente chamou o então secretário de Fazenda do Distrito Federal, Valdir Moysés Simão.

Com a nomeação de um homem de confiança da presidente para a secretaria-executiva, o ministro do Turismo tem que administrar situações incomuns. Outro dia, Gastão Vieira foi ao Planalto para tratar de emendas parlamentares com a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, mas ficou pouquíssimo tempo porque a orientação de Dilma era que o assunto fosse discutido com o vice-ministro.

A presidente adquiriu esse hábito de despachar com os secretários-executivos quando comandava a Casa Civil. Alguns viraram ministros de seu governo, caso de Paulo Passos, dos Transportes; e de Isabela Teixeira, do Meio Ambiente.

- Ela despacha muito com secretários-executivos porque são eles que tocam a máquina administrativa. Por parte de Dilma há grande reconhecimento dessa capacidade técnica - justifica o deputado Paulo Teixeira (SP), líder do PT na Câmara.

Outros dois secretários-executivos com bom trânsito no Planalto são Carlos Gabas, na Previdência, e José Henrique Paim, na Educação. A aposta no Planalto é que Dilma prefere nomear Paim ministro, no lugar de Fernando Haddad, contra a pressão do PT paulista pela senadora Marta Suplicy (PT-SP).