Título: Risco em alta na zona do euro
Autor: Bôas, Bruno Villas
Fonte: O Globo, 06/12/2011, Economia, p. 25
Standard & Poor"s diz que pode rebaixar nota de 15 países da região. Alemanha e França podem perder "AAA"
Às vésperas de uma cúpula que visa a atacar na raiz os problemas da crise da dívida, a agência de classificação de risco Standard & Poor"s (S&P) colocou em perspectiva negativa, para um possível reabaixamento, a nota de 15 países do bloco - inclusive os "AAA", como Alemanha, França e Holanda. Só ficaram fora a Grécia, que tem a pior nota na região, e Chipre, que já estava sob revisão para rebaixamento. A nota é usada para orientar investidores sobre o grau de risco de títulos postos à venda no mercado. Quanto mais baixa a nota, mais altos os juros exigidos pelos investidores para comprar os papéis. O anúncio foi feito horas depois de o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e a chanceler alemã, Angela Merkel, informarem que chegaram a um acordo para o novo tratado para a União Europeia (UE) e salvar o euro.
O comunicado da S&P afirma que a decisão se deveu à observação de que "o estresse sistêmico na zona do euro aumentou nas últimas semanas". Segundo a agência, esse estresse se deve ao aperto do crédito na região; à alta do retorno sobre os bônus soberanos (inversamente proporcional à procura dos investidores); à falta de acordo entre os líderes europeus sobre medidas contra a crise; ao elevado endividamento dos países da região; e ao elevado risco de uma recessão na zona do euro em 2012. A S&P disse que a revisão terminará depois da reunião de cúpula da União Europeia (UE) na sexta-feira. E informou que o rating de Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, Holanda e Luxemburgo pode ser reduzido em um grau. O dos demais países, em dois.
Depois da divulgação do comunicado da S&P, Alemanha e França soltaram uma nota conjunta reforçando que tomarão "todas as medidas necessárias, junto a seus parceiros e às instituições europeias, para assegurar a estabilidade da zona do euro".
França diz que não haverá 3º pacote
A mesma S&P foi responsável pelo histórico rebaixamento dos Estados Unidos, em agosto deste ano, de "AAA" para "AA+". A possibilidade de as grandes economias da zona do euro terem a nota reduzida fez o colunista James Mackintosh, do "Financial Times", afirmar que o "AA+" é o novo "pretinho básico". "Para os investidores, isso (o rebaixamento) será uma declaração do óbvio: não há mais qualquer ativo livre de risco na zona do euro".
A França já vinha enfrentando rumores de que perderia sua classificação "AAA". No início de novembro, um erro interno da S&P fez circular a informação de que o país teria sido rebaixado, o que foi rapidamente corrigido. E outra agência de classificação, a Moody"s, alertou no mês passado que o país pode ser colocado em revisão devido a seu elevado endividamento.
Mas o ministro de Finanças francês, François Baroin, disse ao canal France 3 que o alerta da S&P não levará o governo a decretar um terceiro plano de austeridade.
- Temos margem para uma eventual desaceleração econômica - afirmou Baroin. - Tudo foi feito para proteger os franceses e suas economias. Tudo foi feito para permitir que os bancos mantenham a irrigação da atividade econômica.
Já a Bélgica, que fora rebaixada no mês passado devido a seu impasse político - o país ficou quase 19 meses sem governo - nomeou ontem Elio di Rupo como novo primeiro-ministro.
A notícia, só divulgada oficialmente após o fechamento do mercado americano, foi antecipada pelo jornal britânico "Financial Times", que afirmou em seu site, citando fontes, que a S&P pretendia revisar a nota de seis países da zona do euro com rating "AAA". Com isso, acabou pesando no fim dos negócios na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e em Wall Street. O impacto, porém, foi limitado, já que ainda não havia confirmação oficial.
O Ibovespa, índice de referência do mercado brasileiro, fechou em alta de 1,77%, aos 58.910 pontos, após chegar a avançar 2,35% no fim da tarde. O dólar comercial, que caminhava para uma leve queda no pregão, fechou em alta de 0,22%, a R$1,792, interrompendo uma sequência de seis quedas seguidas.
Analista alerta para semana volátil
Em Wall Street, o Dow Jones fechou em alta de 0,65%, após chegar a subir 1,39% antes da publicação da notícia pelo "Financial Times". O Nasdaq encerrou em alta de 1,10%, também abaixo da máxima do dia.
- A S&P pode assustar os mercados, mas não acredito que veremos alguma ação política apenas por causa da opinião de uma agência de rating - disse à Bloomberg News Guy LeBas, diretor de Estratégia da corretora Janney Montgomery Scott, antes do anúncio da S&P.
Segundo analistas, os mercados abriram em alta no mundo inteiro após a divulgação do plano de austeridade de 30 bilhões do primeiro-ministro italiano, Mario Monti. Os ganhos se aceleraram no meio da tarde, com a reunião entre Merkel e Sarkoky, sobre o novo tratado para a zona do euro até março. Nesse clima, os mercados europeus fecharam em alta: Londres (0,28%), Paris (1,12%), Frankfurt (0,42%) e Madri (1,72%). O maior avanço, de 2,91%, foi registrado na Bolsa de Milão.
Segundo Álvaro Bandeira, diretor de Varejo da Ativa Corretora, a reação dos mercados ao encontro dos dois líderes mostra a importância da cúpula europeia para o mercado internacional.
- Vai ser uma semana de muita volatilidade e crucial, com muitas notícias importantes para o mercado na Europa - disse Bandeira.
Dos 68 papéis que compõem o Ibovespa, apenas oito fecharam em baixa ontem. O destaque ficou novamente para as ações da LLX Logística, empresa do grupo EBX, de Eike Batista. As ações avançaram 10,06%, cotadas a R$3,61, após a empresa anunciar um acordo com a americana InterMoor para instalação de um centro de apoio e prestação de serviços à indústria de óleo e gás no Porto do Açu (RJ).
Os ganhos do pregão foram sustentados, no entanto, principalmente por ações da Petrobras e da Vale, que têm importante peso no Ibovespa. Os papéis Vale PNA (preferenciais, sem voto) fecharam em alta de 1,48%, a R$40,50. As ações Petrobras PN subiram 1,95%, a R$22,97.
(*) Com agências internacionais