Título: Decisão de rejeitar pacto isola o Reino Unido
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 10/12/2011, Economia, p. 35
Premier David Cameron enfrenta resistência da opinião pública e dos conservadores para continuar no bloco
LONDRES. É muito fácil à primeira vista classificar o veto de David Cameron ao novo tratado da União Europeia como uma decisão egoísta - norteada pelo interesse em proteger seu fortíssimo setor de serviços financeiros de maior regulação - e típica do único dos grandes países do continente a não ter aderido à moeda única. No entanto, Bruxelas não é o único front em que o premier britânico precisa combater. Ele também se vê envolvido numa batalha doméstica envolvendo o relacionamento do país com o bloco político-econômico.
Além de ser líder do Partido Conservador, historicamente hostil às transferências de poder, Cameron precisa lidar com a insatisfação popular: segundo as mais recentes pesquisas pan-europeias, os britânicos têm o maior índice de insatisfação com a UE entre os 27 países: 54% acreditam que seu país saiu perdendo com a integração continental. O chamado ""euroceticismo"" é uma batata política tão incandescente que o Reino Unido jamais realizou uma consulta popular sobre o bloco.
Isolamento britânico traz risco para a diplomacia
E, justiça seja feita, a mesma Alemanha que lidera os esforços de resgate do euro viu insatisfação popular diante da proposta de ajuda financeira às economias problemáticas da UE, em especial a Grécia. No entanto, o isolamento britânico é uma jogada de risco no plano diplomático. Cameron será o inimigo público europeu número um em caso de fracasso do projeto de moeda única.
Comentaristas também enxergaram um salto para trás em décadas de lobby contra o domínio franco-germânico da UE. Não se pode esquecer ainda que o comportamento de risco dos bancos britânicos que Cameron tanto fez questão de defender na reunião de Bruxelas teve seu papel no abalo global de 2008, e cujas ondas de choque ainda são sentidas na Europa. Ontem, enquetes no setor financeiro mostraram-se amplamente favoráveis à decisão do premier.
Politicamente, o caminho tem jeito de corda bamba, por mais que o premier tenha aplacado uma ameaça de revolta entre os conservadores em que comentaristas políticos viam potencial de motim. Foi graças a uma coalizão com os "eurófilos" liberais-democratas que Cameron obteve maioria parlamentar depois das eleições de maio de 2010. Ainda que nem parceiros de governo nem a oposição queiram comprar uma briga que aos olhos do eleitorado envolve a soberania britânica, um passo em falso pode expor o premier. Algo, por sinal, ressaltado pelo vice-premier e líder dos liberais-democratas, Nick Clegg.
40% das exportações vão para zona do euro
Apesar de defender a posição de Cameron no tocante à proteção dos interesses britânicos, Clegg afirmou também que é importante agora concentrar esforços na preservação do mercado comum europeu para evitar danos à economia do país. Para se ter ideia, cerca de 40% das exportações britânicas, por exemplo, vão para países da zona do euro. Além disso, os bancos do país têm quase US$1 trilhão em ativos da região.
- É importante que não tenhamos uma Europa de dois andares, isso seria desastroso - disse o vice-premier.
O racha de ontem não é o primeiro envolvendo Londres. Nos anos 60, o Reino Unido teve duas vezes vetados seus pedidos de entrada no protótipo da UE, o Mercado Comum Europeu. E uma rebelião parlamentar forçou uma segunda votação do Tratado de Maastricht, o documento seminal da União Europeia, numa novela que quase derrubou o então governo conservador de John Major.