Título: Major orienta João Dias a esquecer denúncias
Autor: Souza, André de; Carvalho, Jailton de
Fonte: O Globo, 14/12/2011, O País, p. 15

Durante depoimento, oficial aconselhou o PM a não levar adiante as acusações de corrupção contra Agnelo Queiroz

BRASÍLIA. O soldado João Dias, pivô da demissão do ex-ministro Orlando Silva do Esporte, foi aconselhado por um oficial da Polícia Militar a desistir das denúncias contra o governo do Distrito Federal. Durante depoimento à Corregedoria Geral na quarta-feira passada, o major Neilton Barbosa, em vez de interrogar o soldado, sugere que ele não leve adiante as acusações que poderiam atingir integrantes da corporação e o governador Agnelo Queiroz (PT), conforme revela áudio obtido pelo GLOBO. Dias foi preso semana passada após jogar um pacote - que, segundo ele, continha R$200 mil - contra auxiliares do secretário de governo, Paulo Tadeu.

Dias sustenta que o dinheiro teria sido deixado na casa dele no dia anterior por emissários de Tadeu, um dos principais auxiliares de Agnelo, para que o policial deixasse de lado as denúncias que vinha fazendo sobre corrupção. Dias é acusado de desviar dinheiro do Programa Segundo Tempo no período em que Agnelo era o ministro do Esporte. Após a fracassada tentativa de entregar os R$200 mil a Tadeu, Dias foi preso e prestou depoimento à Polícia Civil e à Corregedoria da PM.

No interrogatório, Dias fez acusações contra Tadeu e contra o chefe da Casa Militar, coronel Rogério Leão. No momento de repetir as declarações à Corregedoria, Dias foi aconselhado a esfriar a cabeça e ficar calado. No começo no interrogatório, Barbosa quer saber se Dias estava gravando a conversa.

- Você está gravando ? - pergunta Barbosa.

- Não, pelo amor de Deus. A gente grava bandido - responde o soldado.

A partir daí, o major troca o papel de interrogador pelo de conselheiro.

- Você tem certeza que quer seguir com esse tipo de coisa? Porque você está se comprometendo e vai afundar mais ainda - diz Barbosa.

"Relata, mas você está botando o pé na cova"

No depoimento que prestou à Polícia Civil, o próprio Dias admitiu participar de alguns atos de corrupção, como a suposta compra do silêncio de Daniel Tavares, funcionário de um laboratório que acusou Agnelo de receber propina de R$5 mil quando ele era diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A operação teria tido a participação do coronel Leão, o mais influente da polícia local. Barbosa adverte que Dias está entrando numa enrascada:

- O que eu tenho para te dizer: quer relatar, relata, mas você está colocando o pé na cova.

Como argumento para convencê-lo, Barbosa lembra que seria melhor para o PM se ele respondesse apenas por lesão corporal, e não por corrupção. Na tentativa de supostamente devolver o dinheiro a Tadeu, Dias quebrou o dedo de um policial da segurança do governo. Para o major, Dias deveria reconhecer as ofensas, mas esquecer das acusações de corrupção:

- Olha só: dá um tempo, pensa no que você está fazendo. Porque você está assim: réu confesso por corrupção passiva.

A deputada distrital Celina Leão (PSD) cobrou providências do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e do diretor-geral da PF, Leandro Daiello:

- As coisas estão acontecendo no nariz do procurador. Alguém tem que ser preso.

Ontem, a PM anunciou o afastamento do major e a abertura de inquérito sobre a suposta tentativa de abafar o caso.