Título: Rússia quer união das repúblicas capitalistas
Autor: Oswald, Vivian
Fonte: O Globo, 18/12/2011, O Mundo, p. 49

Putin costura primeiros acordos para fortalecer bloco da Eurásia

FÃS SAEM às ruas do centro de Moscou em apoio a Putin: Rússia articula aproximação inédita com vizinhos desde a desintegração da URSS e sem olhar “de cima pra baixo”

vivian.oswald@bsb.oglobo.com.br

MOSCOU. A Rússia lidera uma nova empreitada para tentar reunir as antigas repúblicas soviéticas, garantir a sua influência na região e se fortalecer diante do crescimento de associações fortes como a dos asiáticos e a dos europeus. A chamada união da Eurásia é uma das plataformas do premier Vladimir Putin, que nega que a iniciativa tenha qualquer relação com o que foi a União Soviética. Embora não esteja claro o rumo que a nova associação vai tomar nem o grau de integração que terá, analistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que esta é a primeira tentativa madura de união desde 1991. Putin fala em união econômica e política. Mas não dá detalhes de como seria essa segunda parte.

Há um mês, Rússia, Bielorrúsia e Cazaquistão assinaram acordos para estreitar os laços econômicos entre os países que, juntos, têm um PIB superior a US$2,5 trilhões, além de serem produtores de petróleo e gás. A expectativa é de que a Ucrânia seja a próxima ex-república soviética a ingressar no grupo, apesar de divergências dificultarem sua adesão. Russos e ucranianos têm diferenças como as acusações a Yulia Timoshenko, ex-primeira-ministra da Ucrânia condenada a sete anos de prisão por abuso de poder na assinatura do contrato de gás com a Rússia em 2009.

No meio do caminho entre Oriente e Ocidente

O especialista em política internacional Fyodor Lukianov, editor da revista “Russia in Global Affairs”, afirma que a estratégia de união que está sendo costurada é sinal dos tempos.

— Pela primeira vez, a Rússia está tentando uma aproximação em que não olha para os países de cima para baixo, mas sim uma associação madura que tem como principal objetivo interesses comerciais.

O próximo alvo é a Ucrânia. Seria, segundo analistas, a confirmação de que a união vai andar para frente.

— Se você me perguntasse há alguns meses, eu diria que eles não assinariam de jeito algum. Mas, hoje, eu diria talvez — acrescenta Lukianov.

Curiosamente, o pontapé inicial para este novo formato de reaproximação entre países que, em sua maioria, vivem às turras com a Rússia, se dá exatamente no ano que marca duas décadas do colapso da URSS. Em 1991, cada uma das 15 repúblicas foi obrigada a andar com as próprias pernas depois de perder o conforto de estar sob o guarda-chuva de proteção da “Mãe Rússia” — apesar de, ao mesmo tempo, não poderem se dar ao luxo de se afastar completamente da esfera russa de influência.

Mais de uma vez, Putin falou que o colapso da URSS foi “a maior tragédia” do século XX. O país teve a maior perda territorial de toda a História contemporânea: duas Argentinas, num piscar de olhos. Atualmente, o presidente Dmitri Medvedev fala em “um passo novo e muito poderoso a caminho da União Econômica da Eurásia”.

Reunir forças é melhor do que enfrentar sozinha as outras alianças comerciais, que, pouco a pouco, vão ampliando tentáculos por Europa e Ásia. A ideia, segundo Lukyanov, é que a associação se posicione no meio do caminho entre Oriente e Ocidente já que, embora seja um país europeu, a Rússia não tem a menor possibilidade de se integrar à União Europeia.

Enquanto se esfacelava a União Soviética, em dezembro de 1991 foi criada a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), uma organização supranacional composta por 11 repúblicas da antiga URSS. A união política se fragilizou ao longo dos anos à medida que as diferenças entre os países afloravam. O Turcomenistão deixou de ser membro permanente, em 2005. Em 2009, depois da guerra com a Rússia, a Geórgia abandonou o grupo.

A Rússia vive às turras com as ex-repúblicas, sobretudo com a Ucrânia e a Geórgia, que vive sob o embargo imposto por Moscou até hoje. Ambas tentaram ingressar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e flertaram com a União Europeia, deixando o Kremlin irritado. Os outros países jogam com a vontade de se aproximar do Ocidente com o objetivo de arrancar benefícios dos russos. Existem diferenças de fronteiras e questões antigas entre as ex-repúblicas.

Com a a Ucrânia, por exemplo, o gás russo que atravessa o país rumo à Europa tem sido motivo de disputas entre os dois países, assim como a Crimeia, balneário russo por excelência “dado de presente” por Nikita Krushev, em 1954, à Ucrânia, num gesto de política doméstica aparentemente inofensivo. À época, Ucrânia e Rússia eram parte da União Soviética. O porto de Sebastopol, que abriga a Frota Russa do Mar Negro, é ucraniano, mas arrendado por Moscou conforme acordos assinados entre os dois países.

Com o colapso da URSS, essa região de maioria russa acabou ficando do outro lado da fronteira, e até hoje os russos se ressentem da medida de Krushev.

Kiev prorrogou até 2042 o arrendamento da base naval da Crimeia para a Rússia e, em troca, recebeu um desconto de 30% na importação do gás. A questão poderia ser facilitada se Rússia e Ucrânia formalizassem um acordo mais amplo, avaliam especialistas.