Título: BC vê 54% de chance de inflação furar a meta, mas..
Autor: Oswald, Vivian
Fonte: O Globo, 23/12/2011, Economia, p. 25

IPCA pode romper teto de 6,5% este ano. Em 2012 haveria um recuo, para 4,7%, prevê relatório da instituição

BRASÍLIA. O Banco Central (BC) reconheceu que aumentaram consideravelmente - para 54% - as chances de a meta de inflação de 2011 romper o teto de 6,5%. Mas o último Relatório Trimestral de Inflação do ano, divulgado ontem, reafirmou a convicção de que o IPCA entrará 2012 em declínio, convergindo para próximo do centro da meta de 4,5% até dezembro (4,7% no cenário de referência e 4,8% no de mercado). Mesmo assim, identificou novas pressões para 2013, decorrentes dos cortes de juros já em curso e da recuperação da atividade econômica. Isso poderá elevar a inflação a até 5,3% no fim de 2013, pelo cenário de mercado.

Os cenários do BC para a inflação consideram a manutenção dos juros a 11% ao ano e a taxa de câmbio a R$1,80. Embora o BC aposte em IPCA de 4,7% em 2013, contra 5,3% do mercado, o diretor do Departamento Econômico da instituição, Carlos Hamilton, não descarta aumento nos juros no fim de 2012 para segurar os preços:

- Caso o cenário pior se confirme, vamos tomar as medidas necessárias.

Até lá, os analistas entendem que o relatório indica manutenção da política de cortes de juros, que caíram 1,5 ponto percentual desde agosto. "O Comitê de Política Monetária reforçou sua estratégia de ajustes moderados na condução da política monetária", afirmou em nota o Departamento Econômico do Bradesco.

Para Hamilton, o auge do crescimento do país em 2012 deve ocorrer no segundo semestre:

- A pressão mais forte (sobre a inflação) será no fim de 2012 e no início de 2013.

O relatório do BC voltou a revisar para baixo a estimativa de expansão da economia em 2011, de 3,5% para 3% (oficialmente, o Ministério da Fazenda prevê 3,8%). Para 2012, é 3,5%.

"A inflação vai sempre convergir e não converge"

Segundo o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas, para essa expansão se confirmar o Brasil deve crescer 5% no segundo semestre de 2012, o que explica a expectativa de novas pressões sobre a inflação. Para ele, o relatório deixa claro que o BC superestimou o impacto da crise global sobre o preços das commodities:

- E não foi só o BC. O próprio mercado achava que os preços cairiam mais depressa.

Pelas contas do BC, passaram de 45% para 54% as chances de a inflação superar 6,5% este ano. Mas o IPCA deve recuar a 5,9% no fim do primeiro trimestre de 2012 - sob a pressão dos reajustes de matrículas e mensalidades escolares - e a 5,6% no trimestre seguinte, até fechar dezembro em 4,7%. No segundo trimestre de 2013, estaria em 4,4%, atingindo 4,7% no fim do ano.

No plano internacional, o BC trabalha com recessão nos países ricos e restrição ao crédito, mas prevê uma "dinâmica benigna" dos preços das commodities, o que ajudaria a reduzir a inflação internamente.

Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, as projeções do BC estariam descoladas da realidade.

- A inflação vai sempre convergir mais à frente e não converge. Podemos estar a alguns dias de ver o presidente do BC, Alexandre Tombini, escrever ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, uma carta explicando por que a inflação ficou acima da meta e o que fará para fazê-la convergir. A carta certamente será mais interessante do que o próprio relatório de inflação.