Título: Pernambuco não pode ser discriminado, diz Bezerra para explicar verbas ao estado
Autor: Alencastro, Catarina
Fonte: O Globo, 05/01/2012, O País, p. 3

Ministro afirma que recursos para Petrolina não se relacionam ao filho candidato a prefeito

BRASÍLIA. Convocado às pressas para Brasília, antes do término de suas férias, o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, passou duas horas ontem tentando explicar as razões de Pernambuco, seu estado, receber de sua pasta as maiores verbas para prevenção de desastres naturais, e Petrolina, sua cidade, também ser beneficiada com verbas de resposta a desastres. Bezerra disse haver discriminação contra Pernambuco. Insistiu que o recurso é necessário e que a presidente Dilma Rousseff tinha conhecimento que parte do dinheiro seria para um complexo de barragens no estado.

O ministro afirmou que está forte no cargo e negou ter havido interferência do Palácio do Planalto no seu trabalho e no controle de distribuição de seu orçamento. Diante do direcionamento político das verbas de prevenção contra enchentes, Dilma condicionou as liberações de recursos do ministério ao aval da Casa Civil. Bezerra reagiu ao esvaziamento do ministério.

- Só será esvaziado se eu estiver longe daqui - disse o ministro, que, depois, voltou ao assunto.

- Só sou chamado para trabalhar com ações bem definidas. Não me chamem para meia tarefa. Não senti qualquer tipo de cerceamento (do Palácio do Planalto) às ações do ministério.

Segundo ele, Pernambuco recebeu R$98,3 milhões da verba para ações de prevenção. Esse montante representa 45% dos R$218,7 milhões distribuídos para todos os estados para esta finalidade pelo Ministério da Integração. Bezerra explicou que Pernambuco apresentou oito projetos após as enchentes que atingiram o estado em 2010, que deixaram 18 mil famílias desabrigadas. Desse montante, ele explicou que R$70 milhões são destinados à construção de cinco barragens.

- Não existe política partidária, nem política miúda, pequena. Não aceito esses argumentos contra nenhum estado. Não se pode discriminar Pernambuco por ser o estado do ministro. Dos R$98 milhões, R$70 milhões foram para a prevenção, para a construção de cinco barragens - disse o ministro, que mais tarde citou a presidente Dilma ao falar de novo do assunto:

- A presidente sabia que 70 (milhões de reais) iam para essas obras - afirmando que a liberação faria parte de acordo com o governador pernambucano Eduardo Campos.

Fernando Bezerra escolheu Petrolina (PE), cidade na qual exerceu três mandatos como prefeito, para liberar os principais recursos de Resposta a Desastres Naturais no interior do estado. O ministro liberou para sua terra natal R$8,9 milhões, contra R$1,2 milhão destinado, em Pernambuco, aos 14 municípios devastados pela enxurrada em 2010. Petrolina só perdeu para Recife, com R$62 milhões, entre as 96 cidades pernambucanas contempladas.

- Esse dinheiro não foi do Ministério da Integração para Petrolina. Foi para a operação carro-pipa, coordenada pelo Exército, que contrata. Afirmaram que beneficiei Petrolina por ter lá um filho candidato a prefeito. É uma tremenda injustiça.

Para tentar demonstrar não haver privilégios a Pernambuco, Bezerra projetou slides com repasses de seu orçamento para outras rubricas, como ações de assistência à população vitimada pelas enchentes, distribuição de cesta básica e carros-pipa, entre outras, para outros estados. Nas ações de resposta, como no socorro à região Serrana, o Rio foi contemplado com o maior valor, de R$100 milhões. Dessa rubrica sai dinheiro para o pagamento do aluguel social, segundo Bezerra, muito importante para o Rio.

Insinuações de envolvimento do PMDB nas denúncias

Perguntado se os recursos para o complexo de barragens em Pernambuco seriam liberados se o ministro fosse outro político e de outro estado, ele respondeu:

- Qualquer brasileiro sentado nesta cadeira teria liberado o dinheiro.

Também questionado se acha que está sendo vítima de uma disputa política, na qual PMDB e PT teriam interesse em assumir o Ministério da Integração, Fernando Bezerra não poupou um dos partidos da base do governo:

- Preciso acreditar que a imprensa não se deixe levar pelo PMDB.

Sobre deixar ou não o ministério para disputar a prefeitura de Recife, ele respondeu que a decisão depende de seu partido, o PSB, e que a tendência é manter a coligação Frente Popular, na capital pernambucana, e que a preferência da escolha do candidato é do PT, partido do atual prefeito, João da Costa.