Título: Sakineh será apedrejada ou enforcada, diz juiz
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Fonte: O Globo, 26/12/2011, O Mundo, p. 22
Responsável pelo caso de iraniana condenada confirma execução da pena de morte, um ano após suspensão
TEERÃ. Há quase um ano longe dos olhos da opinião pública internacional, a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani pode voltar aos holofotes em breve. Acusada de adultério e do suposto homicídio do marido, ela teve a execução suspensa em janeiro de 2011. Mas, ontem, juiz responsável pelo caso afirmou que a sentença está sendo estudada e que a Justiça do Irã não duvida da culpa. Restaria apenas decidir se a mulher será apedrejada, como previsto inicialmente, ou enforcada.
- Não há pressa. Estamos esperando para ver se podemos realizar a execução de uma pessoa condenada por apedrejamento ou enforcamento - disse Malek Ajdar Sharifi, chefe do Departamento de Justiça da província de Azerbaijão do Leste, onde Sakineh está presa, segundo a agência de notícias Isna. - Assim que o resultado da investigação sair, nós concretizaremos a sentença.
O juiz reafirmou que a pena para uma mulher casada que manteve um relacionamento ilícito exige o apedrejamento. Ainda segundo Sharifi, o chefe do Judiciário iraniano, aiatolá Sadeq Larijani, ordenou a suspensão do apedrejamento para permitir que peritos islâmicos investigassem se a punição poderia ser alterada.
Sakineh foi condenada por adultério em 2006. A iraniana, que teria hoje 44 anos, admitiu o "crime" após levar 99 chibatadas. Ela chegou a retirar a confissão, mas o ato não teve qualquer efeito na determinação de três dos cinco juízes que participaram de seu julgamento.
Abaixo-assinado recolheu 447 mil adesões
A comoção provocada mundo afora pelo caso, denunciado por entidades de direitos humanos, fez sua sentença ser suspensa algumas vezes - embora o Judiciário sempre defendesse de que se tratava de uma punição "definitiva e aplicável". A campanha pela soltura de Sakineh chegou à internet, onde simpatizantes criaram um site (freesakineh.org), que, até ontem à noite, já contava com mais de 447 mil assinaturas. O movimento ganhou a adesão de personalidades como os brasileiros Fernando Henrique Cardoso e Chico Buarque, o cantor Sting e a atriz Catherine Zeta-Jones.
Em agosto do ano passado, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou até a oferecer asilo político à iraniana.
O apelo, porém, não comoveu Teerã. Segundo um porta-voz da chancelaria iraniana, Lula estaria "desinformado" sobre o caso.
Primeira-dama da França, Carla Bruni escreveu uma carta a Sakineh, reproduzida pela imprensa. A mídia estatal de Teerã contra-atacou, chamando Carla de "prostituta". O Vaticano também afirmou acompanhar o caso.
Como resposta ao acirramento da pressão internacional, Sakineh foi levada duas vezes à TV estatal, onde admitiu sua suposta participação no assassinato de seu marido. Em uma delas, a gravação foi feita em sua casa. Os dois filhos da condenada - Saide e Sajjad, de 17 e 22 anos - pediram ajuda à Organização das Nações Unidas, denunciando que a mãe fez as confissões após ter sido torturada. A ONU votou, em março, pela investigação de abusos aos direitos humanos no Irã.
Dois meses antes, o país já teria decidido comutar a pena para dez anos de prisão. Agora, parece ter mudado novamente de ideia Espera-se que as declarações do juiz, de que Sakineh será mesmo executada, voltem a causar comoção entre a opinião pública internacional .