Título: A população sabe discernir
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Fonte: O Globo, 21/01/2012, O País, p. 3

De saída da Educação, Haddad diz que julgamento do mensalão não atrapalhará eleição

O ministro da Educação, Fernando Haddad, diz que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é um caminho sem volta. Para ele, que lançou o novo formato do exame em 2009, falta pouco para que o Enem cumpra a tarefa de acabar com os tradicionais vestibulares. Haddad deixará o Ministério da Educação (MEC) na próxima terça-feira, seis anos e cinco meses após assumi-lo, no auge da crise do mensalão do governo Lula. Pré-candidato do PT à prefeitura de São Paulo, o ministro diz que não aceitará doações de campanha do bilionário setor do ensino privado e fala sobre o efeito que poderá ter o julgamento do mensalão durante a campanha.

Demétrio Weber

Francisco Leali

O senhor que vem do mundo acadêmico está preparado para uma eventual problemas e baixarias na campanha para a prefeitura de São Paulo?

FERNANDO HADDAD: Sabe quem conversa comigo muito sobre esse assunto? A presidenta Dilma. E ela me disse: "Olha, você vai saber se portar, você vai saber se conduzir, porque nós temos um perfil de querer discutir e você vai resistir. Você vai resistir não só aos ataques, vai resistir à tentação de contra-atacar na mesma moeda".

A eleição ocorrerá no mesmo ano em que está previsto o julgamento do mensalão. Uma vez que os principais acusados são do PT, o senhor teme que isso contamine sua campanha?

HADDAD: A população sabe discernir. Até porque compreende que, na modernidade, a responsabilidade é individual. E assim como ela sabe discernir sobre o mensalão tucano em Minas, o mensalão do DEM em Brasília, saberá, na pior das hipóteses, de condenação de alguém, discernir nesse caso.

Campanha custa caro e o senhor. vai precisar de dinheiro. Está disposto a receber doações do setor de ensino superior privado?

HADDAD: Não seria adequado.

É um setor bilionário.

HADDAD: Não é questão de preconceito. É uma questão de incompatibilidade em função do cargo que ocupei. Entendo que não seria adequado. Acho que há uma inadequação em função do cargo que assumi, que eu estou deixando. Não por outra razão. Se outra pessoa recebeu o apoio, natural. No meu caso, penso que é inadequado.

Sobre a sua gestão no ministério, quando o senhor lançou o novo Enem, em 2009, o exame parecia ser a promessa de enterrar o vestibular. O acúmulo de confusões e contestações pode inviabilizar o Enem na próxima gestão?

HADDAD:Acredito que não. Primeiro, nós abolimos 95 vestibulares. Começamos com 47, no primeiro ano. Hoje nós estamos em 95. Não tem mais muito vestibular para abolir no país, não é? Com mais um esforço, acaba o vestibular, pelo menos nas federais. Todo país desenvolvido tem um exame nacional de ensino médio, que dá problemas, diga-se de passagem, em função da escala.

O problema, então, não é o conceito do Enem, mas a parte logística?

HADDAD: A escala é monumental. E, infelizmente, (há) o ilícito, o ato ilícito. Que felizmente, no caso do Enem, os três foram abortados. E indiciados. E, no caso do de 2009, já sentenciados. A Polícia Federal está atuando.

O senhor diria que o Enem é um processo sem volta?

HADDAD: A minha crença é que sim. Até porque o ensino médio depende disso para evoluir. E o vestibular é de um anacronismo a toda prova. As pessoas no exterior não entendem o que é o vestibular, não conseguem compreender a ideia de cada instituição fazer o seu processo seletivo. O tamanho da jabuticaba que nós criamos aqui.

O senhor e sua equipe sempre falaram que a vacina para os problemas seria mais de uma edição por ano...

HADDAD: A primeira vacina é a TRI (Teoria de Resposta ao Item, que permite comparar provas diferentes). Se houver uma enchente, a queda de um caminhão ou o que aconteceu lá no Colégio Christus, você tem condição de reaplicar a prova para um grupo específico. Na minha opinião, o processo só será coroado com dois por ano, porque aí acaba a discussão sobre "não estava bem naquele dia". Que é uma reclamação justa do estudante.

O senhor tem oito anos de MEC, sendo seis anos e quatro meses como ministro. O que está deixando de mal resolvido ou que demanda? O Enem?

HADDAD: Longe disso. Sem sombra de dúvida, gostaria de ter feito muito mais pela educação no campo.

E os indicadores de qualidade da Educação?

HADDAD: Revertemos a tendência de queda dramática. Batemos no fundo do poço entre 2000 e 2001. O Programa Internacional de Avaliação de Alunos foi o pior do Brasil (em 2000). E, em 2001, o pior Sistema de Avaliação da Educação Básica. Tivemos ligeiríssima melhora entre 2000 e 2005. De lá para cá, a evolução tem sido muito forte.