Título: Polícia só observa nova invasão no Paraguai
Autor: Freire, Flávio
Fonte: O Globo, 08/02/2012, O País, p. 12
Após ordem judicial, sem-terra deixam fazenda de um brasileiro, mas logo ocupam a de outro
ÑACUNDAY, PARAGUAI. Numa área de plantio de soja, uma família de sem-terra fincava ontem os primeiros alicerces de uma das centenas de barracas que passaram a integrar a paisagem em Ñacunday, no Paraguai.
Parte da propriedade explorada pelo brasileiro Tranquilo Favero foi invadida nas primeiras horas de ontem por 8 mil famílias paraguaias, numa iniciativa anunciada desde a primeira semana de janeiro.
Horas antes, os sem-terra, num trato informal com a polícia, deixaram pacificamente a propriedade de outro brasileiro, por conta do pedido de reintegração de posse expedido na última sexta-feira pela Justiça do país. Favero disse que também pedirá a expulsão dos "baderneiros" de sua propriedade.
Para evitar problemas judiciais, chefes do movimento ordenaram às famílias que ocupem apenas a área sob a linha de transmissão de energia que corta a região, levando energia da usina de Itaipu para o restante do Paraguai. São 15 quilômetros de terras, agora preenchidos por barracas pretas, azuis e amarelas. Ontem, caminhões, vans e caminhonetes com colchões, panelas e aparelhos de TV percorriam a estrada de terra, levando também outros sem-terra.
Mesmo se tratando de uma área pública, segundo alegam os sem-terra, o brasileiro mantinha ali não só uma lavoura, mas também uma pequena indústria para processamento de soja. Diz a lei que uma área de 25 metros sob cada lado da linha de transmissão é pública, e, por isso, não pode ser explorada por estrangeiros.
Os sem-terra estão com 600 facões e foices. O brasileiro manteve homens armados em frente à sua propriedade, mas não houve confronto. À distância, policiais vigiavam ontem a movimentação dos sem-terra, que os acusam de serem patrocinados pelos empresários brasileiros.
— Os policiais são pagos para fazer a segurança privada dos brasileiros — disse o paraguaio Victor Alenes, que reclama de falta de assistência. — Tem gente que há 13 anos não vê uma ambulância aqui.