Título: Kassab vermelho
Autor: Vasconcelos, Adriana
Fonte: O Globo, 11/02/2012, O País, p. 3

Antigo aliado do PSDB e de Serra, prefeito, cortejado por Lula e Dilma, é vaiado em festa do PT

Adriana Vasconcelos, Andre de Souza, Isabel Braga e Regina Alvarez

Sem o ex-presidente Lula no palco, e com a presença do prefeito de São Paulo e presidente do PSD, Gilberto Kassab, a comemoração dos 32 anos de fundação do PT foi marcada ontem pelo desconforto de parte da militância petista, que recebeu com vaias o convidado inesperado.

Ao longo da festa, outra preocupação da direção do partido era explicar a guinada do governo Dilma em relação às privatizações. Na resolução elaborada pelo Diretório Nacional do PT, o partido ressalta que "não é verdade que acabou a disputa ideológica sobre as privatizações" e reafirma o discurso de que o governo Dilma faz "concessões públicas" e não privatização.

Prevaleceu internamente o debate político em torno das alianças para as eleições deste ano. Incomodada com o esforço de Lula para levar Kassab — tradicional aliado do PSDB, especialmente do ex-governador José Serra — para o palanque do ex-ministro Fernando Haddad na disputa pela prefeitura paulistana, a senadora Marta Suplicy (PT-SP) saiu de Brasília antes do ponto alto da festa, no início da noite. Deixou uma carta pregando respeito aos princípios do PT, lida pelo locutor como "nota importante", assim que a mesa foi composta pela presidente Dilma Rousseff.

Marta, que afirmara na véspera que seria um pesadelo subir no palanque com Kassab na campanha de Haddad, ressaltou na nota as conquistas sociais do PT em seus 32 anos de história, em especial nos governos Lula e Dilma, que, segundo ela, reafirmaram o modo petista de governar.

"Sempre conseguimos fazer valer nossas bandeiras históricas, e é fundamental seguir avançando nas conquistas sociais. Sem abrir mão de nossos princípios, o anseio da população que vê no partido a janela para um Brasil mais justo é o que nos trouxe e nos mantém no poder", diz a nota.

Kassab passa por saia justa l O constrangimento foi total na chegada de Kassab. Ninguém queria se sentar ao lado dele. Na plateia, um militante sugeriu: — Joga ovo no Kassab.

Durante a execução do hino da Internacional Socialista, o prefeito paulistano não sabia o que fazer e não conseguiu disfarçar também o constrangimento.

Mais cedo, em reunião com prefeitos e deputados estaduais, o presidente do PT, deputado Rui Falcão, sem citar as negociações em São Paulo, pregou: — É importante que não sucumbamos à tentação das alianças fáceis, que quebram a nitidez dos compromissos — disse. — O PT não pode se deixar levar pelo pragmatismo exagerado.

O vice-prefeito de Belo Horizonte, Roberto Carvalho, que resiste à pressão do partido para manter a aliança com o PSB, que terá tucanos também como parceiros, afirmou: — O discurso de Falcão foi perfeito! Espero que seja aplicado também em Belo Horizonte, onde não aceitamos nos coligar com o PSDB.

Favorável à aliança paulista com o PSD de Kassab, o prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, se referiu ao pronunciamento de Falcão como "um discurso bambolê": — A aliança com o PSD em São Paulo será extremamente importante, pois estaremos trazendo para o nosso lado um partido que era comprometido com o PSDB — afirmou Marinho.

Falcão se recusou a dar opinião sobre eventual aliança entre PT e PSD em São Paulo, afirmando que a decisão será tomada no dia 2 de junho. E justificou o convite a Kassab: — Nós fizemos um convite a todos os partidos políticos, então, se ele (Kassab) está vindo....

Sem esconder a surpresa com a presença de Kassab, a ex-ministra Iriny Lopes (PT-ES) foi embora antes da chegada da presidente Dilma.

— Não vou poder ficar, mas vamos ver o que vai acontecer — disse Iriny, antevendo reação negativa da plateia.

Já o ex-ministro José Dirceu, um dos mais festejados pela militância, considerou a presença de Kassab um bom sinal para negociações na capital paulista.

Beneficiário de eventual aliança com o PSD, Haddad mostrou surpresa: — Ah, ele (Kassab) está aqui? É bem-vindo.

O acordo com Kassab, de acordo com interlocutores de Lula, incluiria a abertura de espaço na Esplanada dos Ministérios para o PSD, criando um caminho para que o governo não dependa tanto do PMDB. Mas a operação divide os petistas.

— Somos críticos ao projeto de governo de Kassab. A aliança é para fortalecer e não confundir nossa base — criticou o deputado Ricardo Berzoini (PTSP), ex-presidente do partido.

— Não podemos nos dar ao luxo de recusar apoios — rebateu o novo líder do PT, deputado Jilmar Tatto (SP).

Diante da possibilidade de Marta não participar da campanha em São Paulo, Falcão afirmou: — Essa avaliação da participação dela, do momento, das condições, ela é que tem que fazer.

Outro aliado dos governos petistas ganhou destaque no encontro: o presidente do Senado, José Sarney (PMDBAP), e a sua filha, a governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB), foram criticados em panfletos distribuídos pelo deputado federal Domingos Dutra (PT-MA), adversário ferrenho dos Sarney no Maranhão.

O PMDB, principal aliado do governo Dilma, estava representado pelo deputado Mauro Benevides, do Ceará. O vice-presidente Michel Temer e outros líderes não foram.