Título: Ministro pede perdão à bancada evangélica
Autor: Jungblut, Cristiane
Fonte: O Globo, 16/02/2012, O País, p. 11
Gilberto Carvalho reafirma que legislação sobre aborto não será alterada e diz não ter interesse em "constranger as igrejas"
BRASÍLIA. Longe do descontraído ministro que há duas semanas se divertia em Brasília num show da orquestra de frevo pernambucana Bomba do Hemetério, Gilberto Carvalho (Secretaria Geral da Presidência) passou ontem por um aperto e bombardeio de críticas e cobranças da bancada religiosa do Congresso. O ministro, católico fervoroso, pediu perdão a deputados evangélicos pelo mal-estar causado por declarações recentes que deu a respeito do avanço dessa religião sobre as classes C e D. Carvalho ainda reafirmou um compromisso assumido pela presidente Dilma Rousseff na campanha eleitoral de que a legislação sobre o aborto não será alterada.
O encontro durou cerca de três horas. Pela porta de vidro, era visível o constrangimento do ministro, que, além dos ataques, teve que responder a perguntas sobre casamento entre homossexuais e dar esclarecimentos sobre as posições da nova ministra das Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, a favor do aborto. Carvalho estava ali por orientação da presidente Dilma, com o objetivo de buscar a reaproximação com a bancada evangélica, que muita dor de cabeça deu ao governo ano passado, na campanha contra o chamado kit gay.
- A presidente Dilma pediu que reafirmasse à bancada evangélica que a posição sobre o aborto é a posição que ela assumiu já na campanha. A posição do governo está absolutamente clara e assim vai continuar - disse o ministro, na entrevista.
Deputado queria que documento fosse assinado
Sobre a repercussão das declarações que fez durante o Fórum Social Mundial em Porto Alegre - que era preciso disputar com a comunidade evangélica, de preceitos conservadores, a nova classe média do país - o ministro afirmou que sua fala foi distorcida pela imprensa e que, ao contrário, teria elogiado a presença dos evangélicos nesses segmentos sociais.
- O pedido de desculpas, de perdão não foi pelas minhas palavras e sim pelos sentimentos que provocaram. Seria uma loucura fazer uma rede (de mídia) para combater as redes evangélicas. Não temos nenhum interesse em constranger as igrejas evangélicas - disse Gilberto.
Uma das poucas pessoas amistosas da reunião, a deputada Benedita da Silva (PT-RJ) fez defesa enfática do ministro e afirmou que não tem poder de perdoar as pessoas.
O deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) queria que o ministro assinasse um documento desmentindo suas declarações, mas ele não o fez.
- O perdão está para a igreja assim como a anistia está para a política - disse Garotinho.
No encontro fechado, o ministro tratou os deputados de "companheiros evangélicos", disse que esses religiosos são parceiros do governo e lembrou que o atual ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, é evangélico. Comprometeu-se a divulgar uma nota reafirmando o compromisso com esse grupo, o que fez horas depois, e teve que dizer que jamais afirmou ser a favor de união entre homossexuais.
Um dos poucos momentos de refresco para o ministro se deu quando o opositor Ivan Valente (PSOL-SP), um ateu assumido, entrou no plenário da reunião e brincou com Gilberto Carvalho, que abriu um sorriso de alívio com sua presença:
- Sou um agnóstico que veio aqui te salvar, Gilberto - disse Valente.
Ao final do encontro, Gilberto Carvalho parecia perdoado pelos parlamentares evangélicos. Já a ministra Eleonor Meniccuci ainda não. O presidente da Frente Parlamentar Evangélica, João Gomes (PSDB-GO), disse que o episódio do ministro está encerrado:
- Ele se retratou de forma sincera. Quanto à ministra, vamos aguardar seu comportamento.