Título: Retaliação iraniana
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Fonte: O Globo, 20/02/2012, O Mundo, p. 18
Teerã suspende venda de petróleo a Reino Unido e França, enquanto recebe técnicos da AIEA
LONDRES e TEERÃ
Em uma medida de mais impacto político do que econômico, o Irã anunciou ontem a suspensão das vendas de petróleo para companhias britânicas e francesas. O anúncio, divulgado após uma série de ameaças e informações contraditórias de Teerã, busca retaliar o embargo ao produto aprovado pela União Europeia com entrada em vigor em julho. Reino Unido e França foram os dois países mais engajados do bloco na aprovação de sanções contra Teerã, mas, na prática, importam do país apenas 1% e 3%, respectivamente, de suas necessidades de petróleo. O corte de vendas, acompanhado de declarações do ministro das Relações Exteriores iraniano, Ali Akbar Salehi, de que Teerã pretende continuar com seu programa nuclear mesmo no “pior cenário possível” na véspera da chegada de uma nova missão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o órgão de fiscalização da ONU, agravam um quadro de forte tensão diplomática entre o Irã e o Ocidente. Ao mesmo tempo, EUA e Reino Unido aumentam iniciativas para demover Israel dos planos de uma possível ação militar contra o regime de Mahmoud Ahmadinejad. Como parte dos esforços do governo americano para frear Israel, chegou ontem a Jerusalém o conselheiro de Segurança Nacional de Barack Obama, Tom Donillon, para uma visita de dois dias. A agenda incluía encontros com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e com altos funcionários do governo, das Forças Armadas e da Inteligência israelense. Ainda nesta semana, chegará ao país o diretor de Inteligência Nacional dos EUA, James Clapper. O propósito da visita é o mesmo: convencer Israel de que é necessário dar tempo para que as sanções econômicas impostas ao Irã possam surtir efeito e obrigar o país a voltar para a mesa de negociações. O mesmo apelo foi feito pelo chanceler britânico William Hague, que classificou como “imprudente” um ataque militar. Para o chanceler, um Irã com armas nucleares resultaria em uma guerra fria com o Oriente Médio. — Eles seriam atacados e ocorreria uma guerra ou haveria uma guerra fria na qual o Irã seria submetido a graves sanções econômicas e então descobriria que outras nações na região desenvolveram armas nucleares — disse para a BBC. Apesar da defesa de cautela em relação ao país, Hague avalia que o Irã está mais próximo do terrorismo: — O Irã aumentou sua disposição para contemplar atividades completamente ilegais em outras partes do mundo. Isso é parte do perigo que o Irã representa para a paz no mundo. Em tom similar, o general Martin Dempsey, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas americanas, afirmou que um ataque ao Irã neste momento seria “desestabilizador”. Mas o general reconheceu que, até agora, não está claro que os EUA tenham convencido Israel e disse que as conversas estão em andamento.
Ultimato para refinarias na Europa
l O argumento de Israel para não descartar a opção de uma ofensiva é a necessidade de agir antes que Teerã mova suas instalações nucleares para localidades subterrâneas que não possam ser alcançadas em ataques militares. O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barack, diz que é preciso agir antes que o país entre em uma “zona de imunidade” onde se tornaria invulnerável a ataques. Para o país, as ambições nucleares de Teerã são uma ameaça a sua própria existência e o governo cita o sofisticado arsenal de mísseis capazes de alcançar Israel e as declarações de líderes do país contra Israel. Na semana passada, Israel acusou o Irã de estar por trás de tentativas de ataques a diplomatas israelenses na Índia, Geórgia e Tailândia. O governo iraniano parece não atentar para o grau de urgência nas declarações de líderes ocidentais. Em Teerã, o ministro das Relações Exteriores, Ali Akbar Salehi, minimizou o episódio como “propaganda de estado de guerra”: — Acreditamos que estamos certos, não temos a menor dúvida quanto a perseguir nosso programa nuclear. Portanto, planejamos seguir adiante com vigor e confiança e não prestamos muita atenção na propaganda de estado de guerra... Mesmo no pior cenário, permaneceremos preparados.
A série de ameaças feitas por Teerã tem contribuído para impulsionar a cotação o petróleo no mercado internacional. Na semana passada, o país havia dito que cortaria o suprimento de petróleo para Holanda, Grécia, Portugal, França e Itália, mas a promessa nãose concretizou. Antes disso, já havia sinalizado que poderia fechar o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 35% do comércio de petróleo. Desta vez, o porta-voz do Ministério do Petróleo, Ali Reza Nikzad, foi citado no site do ministério dizendo: “A exportação de petróleo cru para companhias do Reino Unido e da França foi interrompida. Vamos vender nosso petróleo para nossos clientes. Temos nossos próprios clientes. A substituição destas companhias tem sido considerada pelo Irã”. A decisão pode ser também um meio de explorar divisões entre os 27 países que dependem ou não do petróleo iraniano. Os maiores compradores são as nações mais endividadas, como Grécia, Espanha e Itália, o que sugere dificuldade para encontrar fornecedores substitutos. Mas há indícios de que a “despreocupação” iraniana é apenas aparente. As vendas de petróleo representam cerca de 80% das receitas de exportação do país e a principal fonte de entrada de moeda estrangeira. Somados, os países da União Europeia compram 18% das exportações. Segundo a agência Mehr, a Companhia Nacional de Petróleo Iraniana enviou cartas a refinarias na Europa com um ultimato para que assinem contratos de longo prazo de dois a cinco anos ou então teriam relações comerciais cortadas. O país alega que seu programa nuclear tem fins pacíficos, apesar de um relatório da AIEA, divulgado em novembro, informar que o órgão “tinha sérias preocupações sobre as possíveis dimensões militares do programa nuclear do Irã”. Uma nova missão de técnicos da agência chega hoje ao país para outra rodada de conversas. No mês passado, os funcionários da agência tiveram o acesso negado a instalações nucleares e a cientistas.