Título: Exportar matérias-primas tem limites
Autor: Jim O’Neill
Fonte: O Globo, 19/02/2012, Economia, p. 29
Criador do Bric alerta que preço de "commodities" cairá com PIB mais verde da China e Brasil precisa mudar modelo
Entrevista
SÃO PAULO. Doze anos depois de criar o termo Bric — acrônimo de Brasil, Rússia, Índia e China, grupo de países que, pelo tamanho da população e ritmo de crescimento de suas economias, interferem nas relações econômicas e de poder internacionais a partir do século XXI —, o economista Jim O"Neill, presidente do Goldman Sachs Asset Management, lança seu novo livro, "O mapa do crescimento: oportunidades econômicas no Bric" (no Brasil em abril pela Globo Livros), reafirmando sua crença nestes países como motores do crescimento do planeta. Mas faz um alerta: o preço das commodities cairá, afetado por um crescimento diferente — e menor — de China e Índia, mais focadas em modelos sustentáveis (uso de fontes de energia renováveis, carros elétricos e tecnologias limpas). O Brasil, fornecedor de matérias-primas, deve buscar agregar valor aos produtos que vende dentro do Bric e investir em tecnologia e educação para mudar a base de sua economia. No livro, O"Neill cria um novo indicador de desenvolvimento. O Growth Environment Score (GES, Índice de Capacidade de Crescimento) usa 13 variáveis macro e microeconômicas para medir a capacidade de um país de fazer convergir a sua economia para os padrões de países de alta renda. O Brasil tem o mais alto indicador entre o Bric, 5,5, mas a China, com 5,4, não fica muito atrás. E a Coreia do Sul, país que O"Neill recomenda ao Brasil imitar, tem 7,6.
Gilberto Scofield Jr.
O GLOBO: Em seu novo livro, o Brasil está desde 2010 em primeiro lugar no Bric no ranking do GES. Era o terceiro em 2005. O que houve?
JIM O"NEILL: Apesar de todos os problemas, o Brasil avançou em termos de controle da inflação e do déficit público e com modesto crescimento do comércio externo. Comparativamente com os outros países do Bric, o país avançou, mas o índice de 5,5 do Brasil é próximo ao 5,4 da China, que não foi tão bem em tópicos como níveis de corrupção ou uso de tecnologia. O Brasil precisa fazer mais e deveria mirar na Coreia do Sul, que possui um índice GES de 7,65.
l E no que o Brasil precisa melhorar?
O"NEILL: Tem que avançar em quatro frentes: aumentar o uso da tecnologia, especialmente computadores e internet; melhorar e ampliar a educação em todos os níveis; aumentar a fatia do comércio externo no PIB (Produto Interno Bruto, a soma de toda a riqueza produzida no país) e fazer crescer os investimentos privados dentro dos investimentos totais.
l O consumo interno dos países do Bric foi um motor extraordinário no crescimento do planeta na última década. Vai continuar assim?
O"NEILL: A crise foi boa para alguns países, especialmente para a China, porque evidenciou que o crescimento não pode ser baseado somente em exportações, e para mercados ricos. O governo da China já sabia disso, tanto que no último Plano Quinquenal, a prioridade do governo de Pequim é o crescimento do mercado doméstico. Mas há uma mudança importante para a próxima década. A China cresceu US$ 1,4 trilhão nos últimos dois anos. Mantido esse ritmo, como digo no livro, o país ultrapassará os Estados Unidos em tamanho até 2027, talvez antes. A China admira o estilo de vida americano mas sabe que, com 1,3 bilhão de pessoas, o planeta não possui condições de sustentar um padrão como o americano. Então o governo chinês vem adotando um novo modelo de desenvolvimento mais sustentável, inclusive em relação aos EUA.
l E qual a consequência disso?
O"NEILL: Os países, especialmente alguns emergentes, como a China, mas incluindo os ricos, se lançam no desenvolvimento de fontes alternativas e renováveis de energia, novas formas de transporte menos agressivas para o ambiente, maior produtividade na produção agrícola e industrial. A China já é o terceiro país que mais opera carros elétricos e as indústrias americanas mudam radicalmente para a adição de gás natural. O Brasil mesmo já usa formas de energia alternativas e renováveis, como o etanol. Então é preciso ter em mente que este modelo exportador de matérias- primas brutas tem limites e vai perder importância no médio e longo prazos. O comércio dentro do Bric, que cresceu bem mais que o comércio mundial, foi fundamental para alavancar os países na última década, mas o Brasil precisa estar atento a essas mudanças no formato do desenvolvimento, principalmente o chinês.
l O senhor diz no livro que titubeou sobre a inclusão do Brasil no Bric, a despeito dos excelentes jogadores brasileiros de futebol, uma paixão sua. Por que o Brasil entrou, afinal?
O"NEILL: Pela vitória do governo brasilero sobre a inflação.
l Muita gente acha que México e Coreia do Sul deveriam entrar no Bric e o senhor mesmo fala dos dois países. Por que não entraram no conceito?
O"NEILL: Por uma questão de tamanho do mercado interno, que é um fator determinante para um país ser considerado um mercado de crescimento e pelo grau de desenvolvimento. Ainda que a Coreia do Sul tenha um forte mercado doméstico, o país tem problemas demográficos, com uma população que envelhece rapidamente. O México era o maior candidato para entrar. l
Como a crise europeia afetará o crescimento dos emergentes? Ela será capaz, por exemplo, de acelerar o jogo de forças dentro dos organismos multilaterais, como o FMI?
O"NEILL: Não afetará tanto quanto em outras épocas. É incrível como alguns países da Europa entraram num processo insular e isso é desapontador. Porque o bloco tem que caminhar para uma abordagem de administração fiscal única e redução de endividamento de forma conjunta. Até mesmo por isso, os países europeus precisam se convencer de que não há a necessidade de termos a União Europeia e mais cinco países europeus no G-20. Ficarei desapontado se até o fim desta década, mudanças reais nos organismos multilaterais não evidenciarem esta nova ordem. Porque o fato é que o Bric cresceu muito mais radicalmente do que eu esperava de 2001 a 2010. O crescimento do PIB conjunto do Bric quadruplicou neste meio tempo de US$ 3 trilhões para US$12 trilhões, representando 14% do PIB mundial. Tem metade da população do planeta e é responsável por quase um terço do crescimento mundial. As consequências geopolíticas disso são evidentes. Ficarei desapontado se até o fim desta década o real brasileiro, o yuan chinês e o rublo russo não tiverem um peso maior na cesta de moedas do FMI.
l O senhor fala na importância do comércio internacional para o crescimento dos países. Por que é tão difícil destravar a Rodada de Doha então?
O"NEILL: Primeiro, porque é um processo muito burocrático, que envolve muitos países, que querem muitas coisas. Segundo, porque o comércio entre os países do Bric aumentou tanto e se complementou tanto que a Rodada de Doha, para eles, já não tem mais a menor importância. O próprio crescimento do fenômeno da globalização enfraquece estes meacnismos formais de discussão sobre desregulação tarifária.