Título: Pesquisadores criticam projeto da base
Autor: Azevedo, Ana Lucia; Jansen, Roberta
Fonte: O Globo, 26/02/2012, O País, p. 4
Módulos interligados teriam facilitado propagação de fogo
Pesquisadores que já trabalharam na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) afirmam que o projeto da base foi um elemento-chave para as dimensões do incêndio. Embora destaquem que a Marinha sempre se preocupou com a segurança, eles criticam a forma como a estação foi projetada. A base era composta de módulos interligados, o que facilitou a propagação do fogo e da fumaça. Clima seco e ventos fortes também podem ter contribuído.
Inicialmente, em 1984, a estação tinha oito módulos. Todos transportados pelo navio oceanográfico da Marinha Barão de Teffé. Com os anos, a estação ganhou mais módulos interligados e em 2004 passou por uma reforma maior. Atualmente, tinha 62 módulos. Um cientista disse que boa parte da reforma foi cosmética e não resolveu problemas da estação. Pesquisadores se ressentiam do fato de refeitório, dormitórios, salas de geradores e laboratórios não funcionarem em áreas separadas, como acontece em outras estações de pesquisa antárticas.
Segundo o professor do Departamento de Biofísica e Biometria da Universidade do Estado do Rio (Uerj) Heitor Evangelista, o crescimento desorganizado da base pode ter proporcionado as condições para o acidente.
- Muita coisa pode ter acontecido. Há muitas formas de aquecimento, há tanques de combustível, e há muita gente no verão - disse.
O modelo de módulos interligados torna todo o complexo vulnerável a incêndios. Porém, tem a vantagem de tornar a estação menos vulnerável às violentas tempestades, muito comuns em toda a Antártica. Já aconteceram casos de equipes de estações com estruturas separadas ficarem isoladas ou sem energia e comida.
Cientista sênior do programa antártico-brasileiro, Jefferson Cardia Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) ponderou que o governo precisa reavaliar as dimensões da Comandante Ferraz, o que, em sua análise, será determinante para o futuro do projeto brasileiro no continente.
- Incêndios em estações polares são recorrentes, infelizmente. Quando pega fogo, falta energia, e não há como bombear a água do mar. A estrutura da estação é toda metálica, mas dentro ela é de madeira, fios elétricos, tem muito equipamento eletrônico. Já tivemos perdas de várias estações por esse problema. A própria estação russa de Vostok (uma das mais importantes do continente) teve uma perda significativa na década de 80 - acrescentou.