Título: Pesquisa científica em chamas
Autor: Maltchik, Roberto
Fonte: O Globo, 26/02/2012, O País, p. 3

Incêndio em base brasileira na Antártica deixa dois mortos. Suspeita é de perda total

Roberto Maltchik, Dandara Tinoco e Natália Castro

TRAGÉDIA NO GELO

Um grave incêndio matou dois militares e deixou outro ferido na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), na ilha Rei George, a 130 quilômetros da península Antártica. O acidente ocorreu às 2h da madrugada de ontem e, até a noite, a Marinha não havia confirmado a extensão dos danos na base científica brasileira. Pelo menos 47 pessoas estavam na estação, de 3.200 metros quadrados, quando o fogo começou. Os 30 cientistas, um alpinista e um servidor do Ministério do Meio Ambiente, que trabalhavam na EACF, devem chegar ao Brasil na manhã de hoje, a bordo de um Hércules C-130 da Força Aérea Brasileira (FAB).

Um dos maiores especialistas brasileiros no continente antártico e cientista sênior do programa antártico-brasileiro, Jefferson Cardia Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirmou que existe a possibilidade, ainda não confirmada, de que tenha ocorrido perda total na estação. E lamentou a dificuldade histórica para o combate a incêndios na Antártica.

- A última informação é de que o prejuízo foi muito grande, sem contar, é claro, o lamentável desaparecimento dos militares. De toda forma, de 35% a 40% dos projetos em execução vão parar. O programa antártico é maior do que a estação, mesmo assim, é muito triste. Infelizmente, esse tipo de acidente não é raro na Antártica. Agora é correr atrás do prejuízo e evitar uma nova tragédia - explicou Simões.

O incêndio começou na praça de máquinas, local relativamente afastado dos compartimentos onde os cientistas ficam alojados. O centro brasileiro tem compartimentos contíguos, o que, em tese, facilita a propagação do fogo.

Amorim confirma morte de militares

A Marinha informou que havia dois mortos no início da noite de ontem. Mais tarde, o ministro da Defesa, Celso Amorim, confirmou, segundo a Agência Brasil, os nomes das vítimas: o suboficial Carlos Alberto Vieira Figueiredo e o primeiro-sargento Roberto Lopes dos Santos. Filho de Figueiredo, o oficial da PM Vinícius Figueiredo, de 25 anos, afirmou que recebeu a confirmação da morte do pai ontem, por volta das 17h30m. Segundo ele, o suboficial era de Vitória da Conquista, interior da Bahia, e tinha 47 anos. Havia morado três anos em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, mas sua família retornou à Bahia quando ele foi para a Antártica, em março do ano passado.

- O óbito foi confirmado em ligação da Marinha. Ele estava tentando apagar o incêndio, e o corpo provavelmente está carbonizado. Meu pai já estava para voltar, no mês que vem. Tinha 30 anos de serviços à Marinha. Nunca demonstrou preocupação com a segurança na base. Ontem (sexta-feira) mesmo falamos com ele pelo telefone, por volta das 23h30m, e estava tudo normal - disse Vinícius, acrescentando que sua mãe está sob o efeito de remédios.

O sargento Luciano Gomes Medeiros ficou ferido, mas não corre risco de morrer, de acordo com a Defesa. Um inquérito policial militar (IPM) foi instaurado para apurar as causas do incêndio.

Em duas notas, os ministros da Defesa, Celso Amorim, e da Ciência e Tecnologia, Marco Antônio Raupp, manifestaram consternação e lamentaram profundamente o acidente. No começo da manhã, Amorim informou a presidente Dilma Rousseff sobre o episódio. Em nota, a Marinha informou que está "extremamente consternada" e que está oferecendo todo o apoio aos parentes das vítimas. A Defesa classificou o acidente como ocorrência gravíssima.

Segundo o governo, os cientistas e outros civis que estavam na estação no momento do acidente estão bem e foram levados para a cidade chilena de Punta Arenas, depois de receber apoio e alojamento na base Eduardo Frei (Chile). Além do Navio-Polar Almirante Maximiano, da Marinha, que partiu de Punta Arenas em direção à EACF, dois navios da Marinha da Argentina e dois botes da Estação polonesa de Arctowski, além de três helicópteros chilenos, também prestaram apoio.

Pela internet, pesquisadores que estavam na estação relatam que o incêndio destruiu tudo na base brasileira e que houve explosão de nitrogênio. Yocie Yoneshigue Valentin, coordenadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Antártico de Pesquisas Ambientais (INCT-APA), disse que soube, por pesquisadores que estavam no local, que o alarme não tocou no momento do acidente e que todos tiveram que sair às pressas, sem levar bagagem nem documentos.

- Perdemos equipamentos caríssimos, de US$ 120 mil. Acredito que esteja tudo carbonizado. No verão, ficam cerca de 60 pessoas trabalhando lá, entre pesquisadores, militares e o pessoal do arsenal de Marinha - disse Yocie.

A extensão dos danos na EACF fez com que todo o contingente militar brasileiro permanente fosse transferido para a Estação chilena Eduardo Frei, após o combate ao incêndio durante a manhã de ontem. Nota da Marinha, no final da tarde, informou que, só quando as condições meteorológicas permitirem, integrantes do Grupo-Base (militares residentes) voltarão à estação para "avaliar os danos causados à estrutura da estação".

O Palácio do Planalto divulgou nota ontem à noite em que a presidenta Dilma Rousseff manifesta "grande consternação" com o incêndio na Estação Antártica Comandante Ferraz. A presidente elogiou o heroísmo dos militares que tentaram apagar o incêndio e determinou ao ministro da Defesa, Celso Amorim, a adoção das medidas necessárias para salvaguardar a segurança dos brasileiros que se encontravam na Base.