Título: BC compra, mas dólar fica abaixo de R$ 1,70
Autor: Bôas, Bruno Villas; Beck, Martha
Fonte: O Globo, 29/02/2012, Economia, p. 23

É a primeira vez em 4 meses. Governo diz que Fundo Soberano está pronto para conter queda da moeda, que recua 9% no ano

RIO, BRASÍLIA e SÃO PAULO. O dólar comercial fechou ontem abaixo de R$ 1,70 pela primeira vez desde outubro do ano passado e perdeu assim um importante piso simbólico, que vinha impedindo uma desvalorização maior do câmbio nas últimas semanas. Apesar da intervenção do Banco Central (BC) no mercado à vista, a moeda americana recuou ontem 0,35%, cotada a R$ 1,699, sua terceira queda consecutiva, refletindo a expectativa de uma maior entrada de recursos de investidores estrangeiros ao país. O câmbio passou a acumular agora uma desvalorização 2,75% no mês e 9,1% no ano, a maior entre as principais moedas do mundo, o que tem gerado reclamações da indústria e preocupado o governo brasileiro.

Ontem, o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, afirmou que o Fundo Soberano está pronto para ser usado para segurar a queda do dólar. O fundo foi autorizado a atuar no câmbio em janeiro de 2011. Ele lembrou que o poder de fogo do Fundo é ilimitado, pois o Tesouro sempre pode emitir títulos para realizar essas operações.

- A possibilidade de usar o Fundo Soberano existe. Mas, por enquanto, continuamos com a política de compra de moeda centralizada no Banco Central - afirmou Augustin.

Ele destacou que a equipe econômica ainda não tomou a decisão de usar essa arma. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem dito nas últimas semanas, no entanto, que o governo não vai permitir uma valorização indesejável do real e que tem "um arsenal" para isso. Ontem, o presidente do BC, Alexandre Tombini, disse que a instituição entrará no mercado quando necessário.

Mercado apostava em atuação agressiva do BC

Logo na manhã de ontem, o dólar atingiu sua mínima do dia cotado a R$ 1,698, com operadores antecipando uma maior fluxo da moeda ao país nas próximas semanas, efeito da injeção de cerca de 500 bilhões que o Banco Central Europeu (BCE) vai realizar nas instituições da região. Os agentes passaram a maior parte do dia esperando que o BC intensificasse sua intervenção no mercado, com um leilão de swap cambial reverso, que, na prática, corresponde a uma compra de dólares no mercado futuro. Mas isso não aconteceu. O BC fez apenas um leilão de compra no mercado à vista, de cerca de US$ 200 milhões.

- O BC tem 80 mil contratos de swap para lançar ao mercado e essa era a expectativa dos agentes. Sem isso, não houve meios de segurar a moeda acima de R$ 1,70 - explica Rodrigo Trotta, superintendente de Tesouraria do banco Banif.

Para analistas, o Banco Central tem "enxugado gelo" ao tentar conter a forte entrada de dólares no país. Desde que que começou a intervir no mercado de câmbio em 3 de fevereiro, o BC já comprou US$ 7,8 bilhões, segundo estimativas das corretoras.

Bolsa avança 1,1% e fica perto dos 66 mil pontos

Segundo Reginaldo Galhardo, da Treviso Corretora de Câmbio, a queda da moeda não foi maior porque o mercado à vista fecha às 17h. Na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), onde a moeda é negociada até as 18h, o dólar fechou a R$ 1,696. Informalmente, os bancos começam a falar num piso de R$ 1,67.

- Se o mercado futuro reabrir com essa cotação, a moeda vai rapidamente cair para R$ 1,695 - avalia Galhardo.

Para o analista da Tendências Bruno Lavieri, as opções do governo estão mais limitadas. Segundo ele, restam poucos "espaços legítimos" para segurar o dólar, como a cobrança de Imposto de Renda para estrangeiro detentor de títulos brasileiros. Sérgio Vale, da MB Associados, disse que o governo pode usar novamente o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para conter a entrada de dólares no país, expandindo o imposto para qualquer entrada de capital no país.

Em Wall Street, o Dow Jones avançou 0,18% e fechou acima dos 13 mil pontos pela primeira vez desde maio de 2008. Com ajuda da Bolsa americana, o a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) subiu 1,1%, aos 65.958 pontos pelo Ibovespa, seu principal índice.

* COLABOROU Paulo Justus