Título: Preocupa a baixa taxa de investimento
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Fonte: O Globo, 08/03/2012, Opinião, p. 6
Com uma taxa de poupança doméstica ainda muita baixa (equivalente a 17,2% do Produto Interno Bruto em 2011) e o investimento ainda representando menos de 20% do PIB - segundo a primeira estimativa do IBGE, houve até uma pequena queda de 19,5% em 2010 a 19,3% no ano passado -, a economia brasileira tem dificuldades para crescer a um ritmo mais acelerado. A insuficiente taxa de investimento leva o país a depender de poupança externa para financiá-la, o que, em certo sentido, nos deixa mais vulneráveis diante dos humores de investidores e credores do exterior.
Após crescer fortemente em 2010, com uma expansão de 7,5% medida pelo Produto Interno Bruto, o Brasil precisou tirar o pé do acelerador, e se expandiu apenas 2,7% no ano passado. Foi melhor assim, pois em caso contrário a inflação teria fugido ao controle, e a dependência de capitais de fora poderia aumentar perigosamente.
Os níveis baixos de poupança interna e investimento são obstáculos macroeconômicos ao crescimento. Para elevá-los, o país precisa de reformas estruturais que contribuam, principalmente, para um equilíbrio sustentável das finanças públicas. Daí a importância de se compatibilizar as regras do sistema previdenciário à realidade demográfica do país, por exemplo. E evitar que os demais gastos com custeio continuem ascendendo mais que a própria média de crescimento da economia, já que isso amplia o déficit. A opção atual, para conter o déficit público, tem sido impor ao setor produtivo e à sociedade como um todo uma carga tributária excessiva, e inibidora da capacidade de investimento na área privada.
Em paralelo às reformas estruturais, o país precisa também de ajustes pontuais que reduzam o chamado custo Brasil. A estrutura de impostos é inadequada e punitiva à produção industrial doméstica, que também sofre com uma infraestrutura deficiente, em especial no segmento de transportes.
A conjugação dos obstáculos macroeconômicos aos pontuais desemboca em uma questão crucial que põe a economia brasileira em desvantagem quando comparada a seus concorrentes: o elevado custo do capital. Por falta de outros instrumentos, o combate à inflação tem sido feito com taxas de juros acima da média internacional. Assim, diante de qualquer ameaça inflacionária, o Banco Central se vê obrigado a aumentar ainda mais os juros básicos, o que pode provocar uma redução brusca e forte no ritmo de atividade econômica.
Ontem, o Comitê de Política Monetária (Copom) resolveu cortar mais uma vez as taxas de juros básicos - em 0,75 ponto percentual, de 10,50% para 9,75% ao ano-, pressupondo que a inflação continuará em declínio e que demanda e oferta internas precisam agora ser estimuladas, para que a economia brasileira recupere fôlego e cresça mais que 4% em 2012. A análise momentaneamente é reforçada pelos fracos resultados do PIB no segundo semestre de 2011, que acabam de ser divulgados pelo IBGE.
No entanto, o corte de juros somente será duradouro se a política econômica contribuir para a remoção dos obstáculos mencionados. Se o governo voltar a pisar no acelerador dos gastos de custeio, o resultado será um repique da inflação, que fará o Banco Central retomar a alta das taxas de juros, em um movimento contraproducente. Cairemos num conhecido círculo vicioso.