Título: Nos EUA elas vão para casa; no Brasil, para o pré-sal
Autor: Fariello, Danilo; Mônica Tavares
Fonte: O Globo, 09/03/2012, Economia, p. 30
Petrobras tem 15,4% do efetivo formado por mulheres. Nas plataformas, maioria é terceirizada
Em pleno século XXI, enquanto nos países em desenvolvimento as mulheres lutam para se impor no mercado de trabalho, nas nações ricas elas estão preferindo ser esposas. Estudo do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), divulgado pela Reuters, mostra que a participação das mulheres com nível superior na força de trabalho recuou 0,1% entre 1993 e 2006, depois de avançar 2,4% entre 1976 e 1992. O motivo? Salários abaixo dos de seus maridos, o que as fez concluir que não valia a pena trabalhar fora. No Brasil, o contraste: as mulheres querem avançar em domínios antes masculinos, como a exploração de petróleo. E nem o pré-sal escapa.
A Petrobras tem hoje 18 mulheres com crachá trabalhando em plataformas do pré-sal, ou 4% do total dessas unidades - uma proporção de 23 homens para cada mulher. Mas a presença delas nos cursos de Engenharia mostra a esperança de mudar esse quadro. Dos cinco mil alunos da Escola Politécnica da UFRJ, 30% são mulheres. Na engenharia civil, 40%.
Na empresa comandada por Maria das Graças Foster - a segunda mulher na estatal a subir em uma plataforma - as funcionárias ainda vivem em um ambiente dominado por homens, mas que vem mudando. As mulheres representam 15,4% do efetivo da estatal. Em 2003, eram 12,1%. A maioria das embarcadas no pré-sal não tem filhos ou é casada há pouco tempo.
Além das 18 do pré-sal, há muitas terceirizadas nas plataformas. A estatal não passa os números, mas segundo o Sindipetro-NF, as terceirizadas são a maioria entre as mulheres nas plataformas do Norte Fluminense: 1.707, contra 254 efetivas.
Muitas dizem que a rotina de trabalho pouco mudou com o pré-sal. Contam que a viagem de helicóptero até a plataforma ficou mais longa (uma hora e 20 minutos) e há mais cobrança por rapidez.
- O trabalho é basicamente o mesmo, mas a plataforma ganhou mais visibilidade na mídia por causa do pré-sal - afirma a técnica de suprimentos Adriana Souza da Cruz, de 29 anos, embarcada há três na P-53, na Bacia de Campos.
Embora não falem em discriminação ou preconceito, reconhecem que passaram por um sentimento de "estranheza".
- Agora é tranquilo. No início teve um pouco de estranheza. Mas, a cada dia que passa, há mais mulheres chegando. A mulher sendo competente e sabendo se colocar não tem problema - diz Adriana.
Do total de funcionários com nível superior na estatal, 20,8% são mulheres. Das 18 do pré-sal, uma ocupa função de nível superior. As outras 17 são técnicas, apesar de muitas terem terceiro grau. Em cargos de gerência, a Petrobras tem hoje 960 mulheres - quase o dobro das 526 de 2003, mas muito menos que os 5.013 homens.
A química Cândida Carolina de Paula Santana, de 30 anos, trabalha na FPSO (navio-plataforma) Cidade Angra dos Reis, na Bacia de Santos, fiscalizando a atuação da operadora Modec. Casada há um ano, está embarcada desde outubro. Ela diz que a função é conveniente. O marido trabalha como engenheiro para a indústria automobilística no Uzbequistão, na Ásia. Nos 21 dias que tem de descanso, vai encontrá-lo. Quando está embarcada, sua rotina inclui conversas pelo Skype, leitura e conversas com os colegas no refeitório.
A técnica de operações Vívian Patrícia de Paula Reis fica na sala de controle, acompanhando os dados de exploração, sem nenhuma outra mulher com que tratar diretamente. Está há quase quatro anos na P-53. Namora, tem 28 anos e, por enquanto, acha difícil equilibrar filhos e trabalho.
A engenheira Ana Maria Blanco, da Gerência de Desenvolvimento de Projetos do Pré-Sal, vê mudanças no panorama para as mulheres desde que começou na estatal, trabalhando embarcada, na década de 80.
Segundo a Petrobras, em 2002, 113 mulheres atuavam em pesquisa e desenvolvimento de Exploração e Produção, no Cenpes. Hoje, são 162 dedicadas à pesquisa ligada ao pré-sal. A estatal tem 254 geólogas, 127 geofísicas e 1.340 engenheiras de várias especialidades.