Título: Investimentos da União caem para 1,16% do PIB
Autor: Beck, Martha
Fonte: O Globo, 09/03/2012, Economia, p. 29
Governo prepara medidas como incluir o setor de autopeças nas desonerações e reforçar o capital do BNDES
BRASÍLIA. O propósito do governo de fazer a economia crescer de forma sustentada - 4,5% em 2012 e 6% no fim do mandato da presidente Dilma Rousseff - esbarra num problema nada fácil de resolver: o aumento dos investimentos. No setor público, a equipe econômica não tem conseguido lidar com restrições fiscais e problemas políticos que fizeram com que os investimentos do governo federal caíssem de 1,28% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010 para 1,16% em 2011.
Já no setor privado, o desafio é reanimar empresas que enfrentam uma carga tributária pesada, financiamento caro, custos elevados e falta de mão de obra qualificada. Sem contar uma taxa de câmbio que afeta a competitividade da indústria e provoca a entrada de importados mais baratos. O resultado disso ficou claro esta semana, quando o IBGE mostrou que a taxa de investimento baixou de 19,5% do PIB em 2010 para 19,3% em 2011.
Preocupado com esse desempenho, o governo prepara medidas que alterem esse quadro. Entre elas, a manutenção da queda dos juros, desonerações e um reforço no capital de bancos federais, especialmente o BNDES, para que emprestem mais a um custo menor.
Outra medida em estudo é incluir o setor de autopeças na desoneração da folha de pagamento. Essas empresas já apresentaram à equipe econômica proposta pela qual aceitariam substituir os 20% de contribuição ao INSS que hoje incide sobre a folha por uma alíquota de 1,5% sobre o faturamento.
- Seria importante para ajudar toda a cadeia automotiva - disse um técnico do governo.
Também está nos planos do governo incluir na desoneração os segmentosmoveleiro, de plástico e têxtil. Além disso, a alíquota dessa desoneração poderia ser reduzida de entre 2,5% e 1,5% sobre o faturamento para 0,8%. O incentivo, concedido no ano passado, vale até 2014.
No setor público, a promessa é conter gastos de custeio, criando mais espaço para despesas com investimentos. No entanto, 2012 começou sem mudanças.
Em janeiro, por exemplo, os investimentos do governo federal recuaram 17,4% frente a 2011, para R$ 6,5 bilhões. E, no mês passado, o governo anunciou corte de R$ 25,5 bilhões nas despesas com investimentos previstas para 2012. Dos R$ 80,6 bilhões aprovados pelo Congresso, foram liberados R$ 55 bilhões. A maior parte desses investimentos seria feita por emendas parlamentares e não estava nos planos do governo, mas os gastos, se executados, ajudariam a reativar a economia.
Nem o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) escapou da tesoura. Em 2011, menos de 10% dos recursos do PAC vieram do Orçamento federal - apenas R$ 20,3 bilhões do total de R$ 204,4 bilhões executados.
Segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO, o governo precisa ampliar a execução dos investimentos públicos, que têm potencial de alavancar os privados. Além disso, é preciso devolver competitividade à indústria.
Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, desonerações pontuais e a compra de moeda para segurar o câmbio funcionam a curto prazo, mas não resolvem problemas estruturais. Já o economista-chefe da Convenção Corretora, Fernando Montero, destaca que a indústria tem de lidar hoje com questões de países ricos, como salários elevados e serviços caros. E faltam produtividade e mão de obra qualificada.