Título: Algum otimismo e muita cautela com o Irã
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Fonte: O Globo, 09/03/2012, Opinião, p. 6
Finalmente, as potências mundiais chegaram a um consenso para exigir do Irã a abertura à inspeção internacional de suas instalações nucleares. Desta vez, Rússia e China, que vetaram ampliação de sanções ao Irã no Conselho de Segurança, se juntaram a EUA, Grã-Bretanha, França e Alemanha na mensagem a Teerã, emitida numa reunião da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU baseado em Viena.
O apelo se segue à quebra do gelo em torno do programa nuclear iraniano, alvo de profundas suspeitas de que tenha como objetivo desenvolver armas nucleares. Em fevereiro, uma autoridade iraniana enviou uma carta à União Europeia oferecendo alternativas para voltar à mesa de negociação. Esta semana, a missão do Irã em Viena anunciou que o país aceitaria uma visita de inspetores da AIEA às instalações da base de Parchin, um dos principais alvos das suspeitas.
Para se entender melhor a situação, é preciso lembrar que a linha duríssima em Teerã, do aiatolá Khamenei, saiu vitoriosa nas eleições e está disposta a levar adiante o programa nuclear. Que Israel está à beira de lançar um ataque militar ao Irã para fazer retroceder o máximo possível suas pesquisas atômicas. Que o presidente Barack Obama, em ano eleitoral, não deseja atiçar, até por responsabilidade pública, uma ação de Israel que teria consequências catastróficas. Ela jogaria para a estratosfera o preço do petróleo, com impacto recessivo no mundo e nos EUA em particular, principalmente na popularidade do presidente que busca a reeleição em novembro.
Por isso, ao receber na Casa Branca o premier israelense Netanyahu, Obama insistiu na tecla da diplomacia, dizendo haver ainda "uma janela de oportunidade" aberta. Frase que, surpreendentemente, ganhou um elogio público do aiatolá Khamenei.
O reinício dos contatos diplomáticos com o Irã não pode supor, contudo, um recuo de qualquer natureza na política de punir Teerã com sanções econômicas, comerciais e políticas. Muito provavelmente, foram as sanções - que dificultam ao máximo as ações do regime -, acrescidas do temor de uma intervenção militar, que levaram os persas a acenar com a volta às negociações.
É preciso testar a intenção do Irã de negociar, mesmo que seja, como de vezes anteriores, uma tática para ganhar tempo. Porque agora, com as sanções funcionando, o tempo corre também contra Teerã. A economia se desarranja, os preços sobem, aumenta a insatisfação popular. Portanto, a política iraniana de "duas caras", segundo palavras do chanceler da França, Alain Juppé, pode custar caro aos aiatolás.
É relevante, neste contexto, a frente unida mostrada pelas potências ocidentais, mais Rússia e China, diante do Irã. E muito importante a insistência de todos os envolvidos em que o processo seja conduzido dentro do diálogo multilateral, com o uso de sanções, sem o recurso extremo às armas, que mergulharia a região - e o mundo - numa nova era de incertezas. Bastam as atuais.
É preciso conter falcões e seguir negociando, sem abandonar
as sanções