Título: Um futuro mais seco
Autor: Grandelle, Renato
Fonte: O Globo, 13/03/2012, Ciência, p. 32

Cerca de 40% da população mundial viverão à beira de rios que enfrentarão estiagens

Nas próximas décadas, 3,9 bilhões de pessoas — cerca de 40% da população mundial — viverão em áreas de bacias hidrográficas que definham, enfrentando poluição permanente e secas pelo menos um mês por ano. A previsão, divulgada por pesquisadores da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), dá o tom do sentimento de urgência que domina Marselha, na França, que desde ontem recebe o Fórum Mundial da Água. Em sua sexta edição e com 35 mil participantes, o encontro busca equilibrar a demanda por este recurso natural, cuja procura crescerá 55% até 2050.

Quem responderá por boa parte do aumento da demanda serão os países em desenvolvimento. O bloco BRICS, acrescido da Indonésia, responderá por mais de metade do consumo mundial de água em 2050.

O Brasil, detentor de 12% da água doce do planeta, estará em uma situação razoavelmente confortável em relação à maior parte do mundo.

Ainda assim, enfrentará dificuldades internas, dado o modo desigual como este recurso se divide em nosso território. E, também, devido a fatores ambientais: segundo um relatório da Unesco, a Bacia do Prata, a segunda maior da América do Sul, enfrenta o crescimento populacional desenfreado em suas margens — o que leva à poluição —, além da expansão da agricultura e a pressão de grandes projetos econômicos, como barragens, hidrovias e programas de irrigação.

— A região metropolitana de São Paulo, na sub-bacia do Paraná, já enfrenta problemas de abastecimento — alerta Glauco Kimura, coordenador do Programa Água para a Vida do WWF-Brasil. — Já na Bacia Amazônica, onde moram apenas 4% da população, estão concentrados quase 70% da água.

Este paradoxo entre densidade populacional e oferta do recurso no país será um problema que teremos de discutir.

A crise de abastecimento seria suficientemente grave se afetasse apenas a água potável. As dificuldades, no entanto, abrangem o volume usado na irrigação, na agropecuária e na produção industrial.

A água é o motor de toda a economia, e os organizadores do fórum pensam em usar este lembrete para pressionar por ações mais concretas, como a instituição de mais impostos, tarifas e transferências — tudo em nome de um uso sustentável deste recurso.

— A camisa de algodão que você veste exigiu 3 mil litros d"água para sua produção — destaca Paulo Canedo, coordenador do Laboratório de Hidrologia da Coppe-UFRJ. — A calça jeans, mais 11 mil litros. Uma tulipa de cerveja, outros 75. Um quilo de picanha, 15 mil. Conforme progredimos, a demanda de água cresce em uma barbaridade exponencial.

Um dia este aperto será suficientemente grande para induzir uma mudança de comportamento.

Os recursos mundiais não comportam uma ordem em que todos os BRICS consumam como os americanos.

Precisamos aumentar o preço já cobrado para a exploração d"água, mas não o suficiente para excluir os pobres, que, desta forma, seriam afetados e perderiam saúde. É uma equação complicada.

Embora se cobre uma taxa para diversos usos d"água, os valores parecem irrisórios — ou, ao menos, não altos o bastante para que o setor econômico priorize a reutilização do recurso. A água acionada para resfriar uma turbina, por exemplo, poderia ser aplicada novamente neste processo. Diversas indústrias, no entanto, ignoram esta economia.

Clima afetará oferta no Brasil

A criação — ou ampliação do poder — de comitês administradores de bacias hidrográficas é outra saída recomendada por especialistas.

Governança, reutilização e mobilização, portanto, são as palavraschave para conter o aumento da procura de água.

— De acordo com cenários pessimistas, a temperatura média do planeta pode aumentar até 5 graus Celsius — lembra Kimura. — Com isso, a oferta de água certamente será alterada. Alguns lugares terão secas mais severas e frequentes; outros, enchentes. No Brasil, o semiárido passará por um processo de desertificação. A Amazônia, por sua vez, viverá entre eventos extremos; e o Centro-Sul, episódios de grandes chuvas.