Título: Poupança e inflação seguram cortes de juros
Autor: Valente, Gabriela
Fonte: O Globo, 16/03/2012, Economia, p. 27
BC indica que Selic ficará em torno de 9% ao ano. Segundo analistas, objetivo foi evitar alta nas projeções do IPCA e mudança na caderneta
EMPURRÃO NO PIB
BRASÍLIA e RIO. O Banco Central (BC) surpreendeu e, pela primeira vez, indicou até quando cortará os juros e em qual patamar. Depois de acelerar o ritmo das quedas da taxa básica (Selic) na semana passada, que passou de 10,5% para 9,75% ao ano, deu mostras de que os juros devem cair para 9% ao ano em abril. A ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada ontem, foi recebida entre os especialistas como um anúncio de que a autoridade está chegando ao seu limite.
Com um tom objetivo e claro, a ata do Copom apontou que a Selic deve chegar a "patamares ligeiramente acima dos mínimos históricos" e aí se estabilizar. A menor Selic já praticada no Brasil foi de 8,75%, entre julho de 2009 e março de 2010, durante o período de recuperação da economia brasileira após a crise internacional de 2008. A maioria dos analistas aposta agora em mais um corte de 0,75 ponto percentual nos juros na reunião em abril, o que levará a Selic para 9%, encerrando o ciclo de corte de juros.
Há uma barreira que impede novas quedas da taxa no Brasil: além desse nível, os juros básicos deixariam a poupança ainda mais atraente e poderia haver uma fuga de investimentos em papéis da dívida brasileira. Nos bastidores, o projeto para fazer a caderneta de poupança render menos está parado por causa da falta de clima no Congresso, envolto a uma crise política com a base aliada e num ano eleitoral. Além disso, a sinalização deve ajudar a atenuar as expectativas de inflação para 2013. O último Boletim Focus - levantamento semanal feito pelo BC com analistas do mercado - prevê que a inflação medida pelo IPCA chegue a 5,50% em 2013, enquanto a expectativa para este ano é de 5,27%. Foi a primeira vez em que a estimativa para 2013 ultrapassou a de 2012.
- O Banco Central está sendo muito explícito para ancorar as estimativas de inflação. É importante ser muito claro para ter sucesso nessa ancoragem - afirma a economista-chefe da Icap Brasil, Inês Filipa.
No documento do Copom, os diretores admitiram que aumentar o ritmo de cortes - que desde agosto era de 0,5 ponto percentual em cada encontro do Copom e passou para 0,75 ponto percentual na semana passada - não era o plano original. Mudar a estratégia dividiu o grupo: dois diretores votaram contra.
- Ficou claro que é uma posição política: o Congresso não vai topar mexer na poupança no meio dessa crise e isso cria um piso para os juros no Brasil - disse o economista da corretora Prosper, Eduardo Velho.
O economista Nilton Rosa, da Sulamérica Investimentos, lembra que, além da caderneta de poupança, o objetivo do BC era "ancorar" as expectativas dos analistas, que depois do corte da semana passada começaram a fazer apostas mais ousadas no mercado de juros futuros.
- Foi algo inusitado, mas esse BC é totalmente diferente do anterior e não deixaria os negócios com expectativas tão distantes do que ele irá fazer.
Para o professor do Ibmec/Rio Gilberto Braga, o próximo Boletim Focus já pode trazer projeções menores para a inflação em 2013, já que a ata sugeriu um ambiente melhor para a inflação:
- É provável alguma repercussão no próximo Focus. Mas a ata vai ser testada o tempo todo pelo mercado, que vai acompanhar se a inflação recua mesmo.
Com inflação, Selic
voltaria a subir em 2013
Apesar da expectativa benigna para a inflação e da expectativa do BC de manter a taxa de juros estável por um tempo, analistas acreditam que a autoridade monetária será obrigada a retomar uma trajetória de alta da Selic no início de 2013. Pelo último Boletim Focus, a Selic encerrará o ano de 2013 em 10% ao ano, acima do previsto para o fim de 2012.
No mercado, a reação foi imediata: a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) "descolou" do mercado internacional - que fecharam em alta, com bons indicadores macroeconômicos - e caiu 0,74%, aos 67.749 pontos. Puxaram a queda papéis de empresas dos setores de construção, consumo e varejo, mais sensíveis ao crédito e que seriam beneficiados por um corte maior da Selic. Já o dólar caiu 0,16% e fechou a R$ 1,804, mesmo após dois leilões de compra de moeda do BC. Em Nova York, o índice Standard&Poor"s subiu 0,6% e ficou acima de 1.400 pontos, o que não ocorria desde 2008. O Dow Jones avançou 0,44% e o Nasdaq, 0,51%. Na Europa, Paris subiu 0,44% e Frankfurt, 0,92%.
Na ata, o Copom diz que a desaceleração da economia brasileira foi maior do que o esperado e dá a entender que vê um crescimento menor daqui para a frente do que o estimado pelo mercado. Isso abriria mais espaço para a queda dos juros sem pressionar a inflação. Nas contas do Copom, a previsão para o IPCA está próximo ao valor central da meta e cada vez são menores os riscos de não atingir o objetivo de 4,5% neste ano. Só que o Copom deixa claro que conta com a equipe econômica para cumprir o planejado para as contas públicas: cortar gastos. E refuta a ideia de que aceitaria uma inflação acima do objetivo central.