Título: Parentes de mortos e desaparecidos políticos festejam ação contra Curió
Autor: Herdy, Thiago
Fonte: O Globo, 15/03/2012, O País, p. 12
Para eles, denúncia é "passo histórico" e não prejudica a Comissão da Verdade
SÃO PAULO. Parentes de desaparecidos políticos e entidades de defesa dos direitos humanos comemoraram ontem a decisão do Ministério Público Federal em Marabá, no Pará, de denunciar o coronel do Exército Sebastião Curió por sequestro de cinco pessoas na região do Araguaia durante a ditadura militar.
- É um passo histórico no sentido de parentes vislumbrarem Justiça. Esperamos que o trabalho frutifique, a história precisa ter fim - disse Maria Laura Petit, que teve três irmãos torturados na guerrilha do Araguaia.
Dos três, apenas Maria Lúcia Petit, de 22 anos, teve as circunstâncias de seu assassinato por militares esclarecida oficialmente, com o encontro de sua ossada em 1991, no Sul do Pará. A família ainda não sabe o que ocorreu com Jaime, que na época tinha 27 anos, e Lúcio, que tinha 29. Segundo Laura, de 156 desparecidos políticos, 70 estavam no Araguaia.
- Quem comandou a operação que resultou na morte da minha irmã foi o General Bandeira, que infelizmente já morreu - disse Laura.
Ela cita a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que determinou ao país a responsabilização de militares e a continuidade da busca pelos desaparecidos, como mais um motivo para a Justiça atuar.
A ex-militante do PC do B Criméia Alice Schmidt Almeida, que perdeu no Araguaia o marido André Grabois e o sogro Maurício Grabois, diz que a decisão de denunciar Curió é parte da "consolidação da democracia no país":
- Se sabe há muitos anos que Curió havia cometido crimes e o Estado nunca tinha tomado qualquer providência. Há mais de 30 anos a gente tinha a expectativa de que torturadores viessem a ser processados.
Ela não teme que as ações na Justiça afastem os militares da Comissão da Verdade, onde a participação será voluntária, e defende que o Supremo Tribunal Federal (STF) aceite a tese de crime permanente defendida pelos procuradores, mesmo que tenha decidido recentemente pela validade da Lei de Anistia.
- É questão de coerência, em função de entendimentos anteriores em casos de extradição de militares argentinos.
Na ocasião, o STF autorizou as extradições por entender que o crime de sequestro é permanente, só deixa de ser cometido quando a vítima é encontrada.
Para Rose Nogueira, coordenadora do Grupo Tortura Nunca Mais em São Paulo, a denúncia é mais emblemática quando se considera o poder alcançado pelo militar no Pará, ganhando até uma cidade com seu nome:
- O regime deu a ele a administração de Serra Pelada, a maior mina de ouro do Brasil. É uma figura emblemática entre os repressores do Araguaia.
Em nota oficial, o Centro pela Justiça e o Direito Internacional parabenizou os procuradores e cumprimentou os parentes dos mortos e desaparecidos políticos, "por entender que este avanço na busca por Justiça é uma consequência de sua luta incansável e corajosa".