Título: ONU aponta 230 mil deslocados na Síria
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Fonte: O Globo, 14/03/2012, O Mundo, p. 28
Regime Assad ignora condenações, concentra ofensiva militar em Idlib e convoca eleições parlamentares para maio
BEIRUTE. O secretário-geral da Liga Árabe, Nabil el-Araby, defendeu uma investigação internacional por crimes contra a Humanidade cometidos na Síria. Mas, impulsionado pela indecisão diplomática internacional, o regime do presidente Bashar al-Assad ignorou as condenações e anunciou eleições legislativas para 7 de maio - além de ampliar uma dura ofensiva militar para retomar o controle da província de Idlib, junto à fronteira com a Turquia, por onde milhares de civis tentam escapar da violência. Estatísticas atualizadas ontem pelas Nações Unidas, aliás, apontaram um cenário preocupante: ao menos 30 mil pessoas estariam refugiadas nos vizinhos Líbano, Turquia e Jordânia e outros 200 mil sírios estariam deslocados de suas casas internamente.
A rota de fuga também ficou mais perigosa. Segundo um relatório da organização Human Rights Watch (HRW), o Exército sírio está minando suas fronteiras com a Turquia e o Líbano com centenas de antigas minas de fabricação soviética banidas internacionalmente em 1997 por 159 países. A Síria, porém, está entre as 37 nações, assim como Rússia e Estados Unidos, não signatárias do tratado que impede o uso desses artefatos, que provavelmente ainda farão vítimas por dias, meses, anos e até décadas por vir.
- O uso dessas minas é inconcebível. Não há nenhuma justificativa para o uso indiscriminado dessas armas por nenhum país, em nenhum lugar, para nenhum propósito - condenou o diretor da HRW, Steve Goose.
Junto à Turquia, 300 minas retiradas neste mês
A ONG relatou ter informações de um ex-removedor de minas do Exército sírio que disse ter desmontado, com colegas, cerca de 300 artefatos na região de Hasanieh, no caminho para a Turquia, apenas no início deste mês. Junto à fronteira com o Líbano, um menino de 15 anos perdeu uma das pernas.
"Eu estava a uns 50 ou 60 metros da fronteira quando a mina explodiu", disse o garoto, em seu depoimento ao HRW.
Preocupada, a ONU também decidiu enviar observadores aos países vizinhos.
- Tentamos manter o máximo de contatos (com pessoas) no terreno. Vamos enviar nesta semana às zonas fronteiriças dos países vizinhos observadores encarregados de recolher informações e de registrar as violações e as atrocidades - revelou a comissária adjunta de Direitos Humanos, Kyung-wha Kang.
O número de vítimas de um ano de crise foi revisado para quase 9 mil, de acordo com um estudo do Instituto de Treinamento e Pesquisa das Nações Unidas. A subsecretária para Assuntos Humanitários, Valerie Amos, classificou a situação na Síria como "altamente trágica".
Fontes diplomáticas afirmam que o governo da Síria respondeu à proposta feita pelo enviado especial da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, para cessar a violência no país. O plano, segundo Annan, teria três objetivos: um cessar-fogo imediato, o acesso à ajuda humanitária e o diálogo político.
- Ele recebeu, sim, uma resposta, que está sendo avaliada - afirmou a fonte, em condição de anonimato.
Para os EUA, eleição parlamentar é ridícula
Além de Homs, os bombardeios do Exército se concentraram na província de Idlib. Mas, ativistas relatavam que, à noite, a região estava sob o controle do regime. Ao menos 85 pessoas teriam morrido nos confrontos em todo o país - entre eles, 22 soldados , assasinados em uma emboscada na cidade de Idlib.
Em Damasco, porém, a imprensa estatal destacava as eleições parlamentares, marcadas para 7 de maio - de acordo com a nova Constituição, o que, em tese, acaba com o monopólio do nacionalista Partido Baath e permite um sistema multipartidário no país. O anúncio foi duramente criticado pelos Estados Unidos.
- Eleições parlamentares para escolher um Legislativo de carimbo do atual regime em meio à violência que estamos vendo é ridículo - reagiu a porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland.