Título: O camaleão que se equilibra no poder
Autor: Jungblut, Cristiane
Fonte: O Globo, 14/03/2012, O País, p. 3

Solícito com aliados e opositores, Jucá manteve cargos apesar de denúncias

Cristiane Jungblut

Catarina Alencastro

BRASÍLIA. Equilibrista é o adjetivo usado pelas raposas da política para explicar como o senador Romero Jucá (PMDB-RR) transitou por vários governos, desde o ex-presidente José Sarney, passando por Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, mesmo enfrentando denúncias de corrupção. Ele deixa o cargo de líder do governo no Senado após dez anos. Mas, no jargão político em Brasília, "cai pra cima". Encerra, por enquanto, sua carreira de líder, para assumir a estratégica relatoria da Comissão Mista de Orçamento.

No Congresso, Jucá era chamado de "eterno líder do governo" e ouvia brincadeiras:

- Não sabemos quem será o próximo presidente, mas o líder já sabemos: Romero Jucá - brincavam aliados e desafetos.

Mas o que Jucá fazia para agradar a governos tão diferentes? Atende a todos os pedidos e ouve muito.

- Tem pessoas que nascem com essa capacidade de se acomodar num perfil de governista sem muita dificuldade. O Jucá é uma delas, com enorme capacidade de mutação - diz o ex-líder do DEM deputado Ronaldo Caiado (GO).

Nesse período na liderança e em outros cargos nos governos, Jucá passou incólume por denúncias de corrupção, caixa dois, tráfico de influência, enriquecimento ilícito, uso de laranjas e lavagem de dinheiro.

Em setembro de 2010 , por exemplo, na campanha de reeleição de Jucá, a Polícia Federal apreendeu R$ 80 mil com Luiz Antônio Teixeira da Silva, um de seus coordenadores. A suspeita era que o dinheiro seria usado para compra de votos. Jucá disse que o dinheiro seria usado para pagar cabos eleitorais. Em maio de 2011, a revista "Época" publicou documentos e depoimento do lobista Geraldo Magela Fernandes dizendo ser laranja de Jucá. Entre as denúncias, que Jucá disse ser de um denunciante desqualificado por ser ex-aliado e atual desafeto, estavam caixa dois, recebimento de propina por parte de empreiteira e busca de dinheiro com doleiros. "Eu era o responsável pela contabilidade da campanha e declarei só 1% das despesas", disse o lobista. As explicações de Jucá foram consideradas satisfatórias por Dilma.

Mais recentemente, também resistiu às denúncias contra o irmão, Oscar Jucá Neto, demitido da Conab por usar verba carimbada para pagar uma empresa. Jucá defendeu o governo e não o irmão.

Líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO) disse que Jucá respeita a oposição:

- O Jucá é muito habilidoso. Conseguiu muitas vitórias para o governo, e a última foi a DRU (Desvinculação das Receitas da União). Ele é respeitoso: nos derrota sistematicamente sem tripudiar.

Jucá teve apenas uma derrota que comprometeu o governo: a queda da CPMF, em dezembro de 2007, no Senado. Na época, os petistas quiseram a destituição de Jucá, mas a avaliação do Planalto foi a de que a base votou contra porque a sociedade não queria continuar pagando o tributo.