Título: Setor naval vive nova era de incertezas
Autor: Tavaresmonicao, Mônica
Fonte: O Globo, 20/03/2012, Economia, p. 18

Após a saída da Samsung, EAS precisa buscar outras parcerias tecnológicas

RECIFE. A saída da Samsung Heavy Industries da sociedade do Estaleiro Atlântico Sul (EAS) mergulhou o futuro da indústria naval brasileira em um mar de incertezas, que desde a última sexta- feira só faz aumentar. Detentor da maior carteira de encomendas do país, inclusive voltadas para o pré-sal, o EAS luta, aos trancos e barrancos, para concluir o petroleiro João Cândido, que registra um atraso de 18 meses na entrega. Até ontem à tarde a empresa não dava informação a respeito da possibilidade de novas parcerias tecnológicas, papel exercido pela sul-coreana, antes mesmo de tornar-se sócia minoritária do empreendimento.

Semana passada, Queiroz Galvão e Camargo Corrêa divulgaram nota informando que assumiram todo o controle acionário do EAS, tido como o mais moderno e maior do Cone Sul. A Samsung detinha 6%. Procuradas ontem à tarde, Queiroz Galvão e Camargo Corrêa não se manifestaram sobre novos parceiros.

Antes da decisão, o EAS levou para o estaleiro trabalhadores experientes, enviados pela Samsung para "apoio operacional". O estaleiro confirmou que a cooperação foi "reforçada com a chegada de novos profissionais sulcoreanos".

Mas, com a saída da Samsung, a informação que circulava ontem era que os profissionais deixariam de dar apoio ao EAS. Nenhuma iniciativa, porém, foi confirmada ou desmentida pelo EAS ou pelas acionistas.

Segundo empresários do setor, o EAS também estaria em atraso com seus fornecedores. A empresa não comenta o assunto.

O EAS tem uma carteira de encomendas de US$ 8,1 bilhões e seu produto mais emblemático é o petroleiro João Cândido, símbolo da retomada da indústria naval. Ele integra um contrato assinado em 2007 entre o EAS e a Petrobras Transporte S/A (Transpetro) para a construção dos dez primeiros Suezmaz (capazes de transportar um milhão de barris de petróleo), dentro do Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef). A solenidade contou com a presença do então presidente Lula.

Em 7 de maio de 2010, Lula voltou ao estado, com a então candidata Dilma Rousseff, para batizar o navio e lançá-lo ao mar. Hoje, o João Cândido está encalhado, com problemas no sistema de vapor, óleo e água a furos nas soldas do casco.

Mas, segundo o EAS a entrega ocorrer pode ocorrer este ano.

O EAS justificou a demora citando o "preço do pioneirismo".

Mas garantiu que, apesar dos problemas, a empresa está no "caminho certo", pois todas as etapas do João Cândido foram aprovadas pela certificadora internacional American Bureau of Shipping.

Até hoje, o EAS só fez uma entrega: o casco da plataforma P-55 à Petrobras. E as atuais encomendas são 22 petroleiros (Transpetro), sete navios-sondas (Petrobras) e serviços navais da P-62 (Sete Brasil).

Segundo o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Alberto Alves, desde o fim de 2011, mais de três mil operários foram demitidos.

Segundo o EAS, a mão de obra volumosa se devia a cinco projetos simultâneos