Título: O inferno astral da Vale
Autor: Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 24/03/2012, Economia, p. 29

Preço do minério, questões tributárias e logísticas afetam valor de mercado e previsões de lucro

MURILO FERREIRA, presidente da Vale: "Olhamos o longo prazo"

O ano não começou fácil para a Vale. Em 2012 a companhia está enfrentando uma série de problemas de preços, logística, acidentes, pressões e cobranças bilionárias que tornam suas perspectivas, pelo menos no curto prazo, nebulosas. Especialistas acreditam que, na melhor das hipóteses, a empresa repetirá o lucro de 2011, embora a maior parte dos analistas aposte em redução nos resultados. Isso começa a impactar suas ações preferenciais, que desde a virada do ano subiram 7,35%, menos que os 16% do Ibovespa, índice de referência para o mercado brasileiro. Neste momento, a empresa vem perdendo a posição de segunda maior empresa do país em valor de mercado para a Ambev. A cervejeira vale R$7 bilhões a mais que a mineradora, em ranking liderado, com folga, pela Petrobras.

- As perspectivas para a Vale no longo prazo continuam positivas, mas parece que há uma insistente nuvem negra sobre a companhia - afirma Pedro Galdi, estrategista da SLW Corretora.

Ele acredita que esta maré de fatos negativos é algo pontual. Murilo Ferreira, que assumiu a presidência da Vale em maio de 2011, teve como primeiro desafio superar as dúvidas que circulavam no mercado, onde muitos analistas temiam por uma subserviência ao governo de Dilma Rousseff - apesar de ser uma empresa privada, a influência é muito forte por causa dos fundos de pensão de estatais e do BNDES, grandes acionistas da mineradora. Para Galdi, superada esta etapa, novos problemas começaram a surgir na empresa:

- O preço do minério de ferro caiu fortemente, em grande parte por causa dos dados econômicos e da pressão chinesa. Se, antes, a tonelada custava US$170, neste ano vem se mantendo abaixo de US$150, e muitos dizem que vai cair para algo entre US$120 e US$130. Acredito que isso é uma estratégia dos chineses, que fizeram estoques. No médio prazo, os preços voltam a subir, mas que isso impacta a companhia agora é certo.

Ferreira minimiza "pouso" da China

Para o estrategista, há ainda outros problemas, como a pressão do governo para elevar tributos e as questões de logística - entre elas, o encalhe de um navio num porto maranhense ocorrido no fim de 2011, a oposição dos armadores chineses em receber os novos supernavios da companhia e os recentes acidentes de trens da empresa, que chegaram a fechar esta semana sua principal estrada de ferro no Pará.

- O governo já anunciou que vai criar a Agência Nacional de Mineração e que vai dobrar os royalties do setor, de 2% sobre o faturamento da empresa para 4%. Muitos argumentam que a Austrália também está elevando os impostos sobre suas mineradoras, mas lá a alta foi de 30%, e a tributação inside sobre o lucro, não sobre o faturamento - afirmou Galdi, que também lembrou iniciativas de governos estaduais, sobretudo de Pará e Minas Gerais, que pretendem aumentar taxas e contribuições, onerando a atividade da mineradora.

Uma das notícias do início deste ano que mais assusta os analistas é a cobrança pela Receita Federal de R$30,5 bilhões sobre lucros de operações da companhia no exterior. O caso ainda está na complexa esfera jurídica, mas notícias sobre algumas decisões desfavoráveis - que acabaram sem efeito com uma liminar do Superior Tribunal de Justiça (STJ) - afetaram o humor dos investidores, ao constatarem que não há provisões da companhia para estas questões.

A advogada Ana Cláudia Utumi, sócia da área tributária do TozziniFreire Advogados, explica que o imbróglio ainda é grande. Embora exista uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) no Supremo Tribunal Federal (STF) - onde já foram dados cinco votos a favor da Receita Federal e quatro em prol da Vale e demais empresas - as companhias querem zerar o jogo e iniciar novo julgamento, a partir de um caso concreto de repercussão geral. Isso porque alguns dos votos a favor do Fisco foram dados por ministros que já se aposentaram e os novos titulares - que, em tese, teriam uma visão mais moderna do caso - não podem votar. Ainda não há previsão de quando o caso será julgado.

- Em outros países não existe essa cobrança de imposto sobre lucros no exterior ao fim de cada exercício, a não ser quando as operações das empresas são em paraísos fiscais. E esta cobrança da Receita Federal fere os acordos de tributação que o Brasil assinou com diversos países - explica a advogada, lembrando que, em geral, a cobrança dos impostos só ocorre sobre a distribuição de dividendos, o que faz uma grande diferença nos resultados de uma empresa como a Vale.

Uma análise da equipe de pesquisa da Planner Corretora destaca que os problemas da empresa começaram com o maremoto seguido de desastre nuclear em março do ano passado no Japão, um grande comprador de minério da companhia. E se agravaram com a crise europeia e, mais recentemente, com o esfriamento da atividade econômica na China. Para a corretora, os números de 2012 da empresa serão muito parecidos com os do quatro trimestre de 2011, quando a receita operacional da mineradora foi 12% inferior à registrada no terceiro trimestre.

No caso da cobrança da Receita, contudo, a corretora está otimista e acredita que a Vale conseguirá se livrar pelo menos da multa cobrada pelo Fisco, cerca de R$12 bilhões dos R$30 bilhões que estão sendo cobrados. Da mesma maneira, a empresa deverá conseguir um desconto sobre os cerca de R$4,5 bilhões que ela tem que pagar sobre royalties atrasados - grande parte deste valor já está provisionado. Mas a Planner também vê um ano de baixos preços para o minério de ferro e talvez até uma redução nas vendas da companhia.

Daniela Maia, da Ativa Corretora, reforça que, no curto prazo, as expectativas sobre a empresa são negativas:

- Este fluxo de notícias negativas afeta o humor do investidor - disse.

Ela acredita que, por causa de todos os problemas em diversas áreas que a empresa enfrenta, é improvável que se repita o lucro de R$37,8 bilhões do ano passado.

Há duas semanas, em um evento na FGV, Murilo Ferreira minimizou grande parte dos problemas apontados por especialistas. Ele disse estar confiante em um julgamento favorável à empresa no caso da cobrança de impostos de R$30,5 bilhões e relativizou uma freada no crescimento econômico chinês, o maior comprador da empresa:

- Nos últimos oito anos, a China teve um crescimento, em média, de 10% ao ano, o que gerou um valor adicionado em produtos e serviços de US$6 trilhões. Se crescer a 7% nos próximos oito anos, por causa da base maior, o valor adicionado será de US$25 trilhões. Olhamos o longo prazo - afirmou Ferreira no último dia 12.

Diversificação é favorável à empresa

Os analistas concordam com esta avaliação do longo prazo favorável à Vale. Galdi, da SLW, vê com bons olhos novos investimentos da empresa, que quer ser, até 2013, a maior produtora de níquel do mundo:

- No ano passado o peso de outros minérios já foi maior no resultado da Vale. Isso e os investimentos em fertilizantes favorecem a empresa. A tendência deve se intensificar este ano, e o níquel tem alto valor agregado.

A análise da Planner reforça que a empresa tem adotado uma política de "gorda distribuição" de dividendos, o que pode favorecer a valorização de suas ações. Já Daniela Maia, da Ativa, afirma que os investimentos da empresa no longo prazo são bem estruturados e tem sido mantidos, o que pode significar boas oportunidades no futuro:

- Mesmo que ocorra um arrefecimento da China que afete a Vale, o país continuará crescendo bem nos próximos anos e a companhia possui um minério de ferro de qualidade que a coloca bem posicionada.