Título: Grupo protesta contra acusados de tortura
Autor: Herdy, Thiago
Fonte: O Globo, 27/03/2012, O País, p. 11

Movimento foi organizado ontem em seis capitais para constranger militares que atuaram durante ditadura

SÃO PAULO. Militares da reserva e policiais acusados de atos de tortura e outros abusos cometidos durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985) foram alvo de manifestações realizadas ontem em seis cidades do país. Integrantes do Levante Popular da Juventude - movimento que surgiu há seis anos no Rio Grande do Sul e hoje tem representantes em todo país - levaram faixas e fizeram "apitaços" em frente às casas ou endereços de trabalho de pessoas identificadas como torturadores, com o intuito de constrangê-las.

As ações ocorreram em Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza, Belém e Aracaju (SE), e devem continuar nos próximos meses.

O grupo chama os atos de "escracho" e informa ter se inspirado em ações semelhantes que ocorreram em países como Argentina e Chile. Eles levam cartazes com imagens dos militares e de vítimas, com base em informações de processos do Ministério Público Federal, livros da época, grupo Tortura Nunca Mais e relatos de familiares.

- Até agora, a única posição que vinha ganhando visibilidade era dos militares que se colocavam contra a Comissão da Verdade e em defesa dos atos do regime. Queremos ter acesso à verdadeira história do Brasil - diz o analista de sistemas Edison Rocha Júnior, de 26 anos, integrante do Levante em São Paulo, onde o ato reuniu cerca de 200 manifestantes em frente à sede da empresa de segurança privada Dacala, que pertence ao delegado aposentado do antigo Departamento de Ordem Política e Social, David dos Santos Araujo.

Araujo foi acusado pelo Ministério Público Federal de participar da tortura e do assassinato do ativista Joaquim Alencar de Seixas, em 1971. Depois do ato, a empresa retirou de seu site as logomarcas de seus principais clientes. Ninguém na empresa quis dar entrevista.

Em Porto Alegre, um muro do outro lado da rua da casa do coronel Carlos Alberto Ponzi, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações da cidade, amanheceu com a frase: "Aqui em frente mora um torturador". Ponzi foi citado em processo que apurou o desaparecimento do militante Lorenzo Ismael Viñas em Uruguaina (RS). O GLOBO deixou recados no telefone da casa do coronel, mas ele não retornou.