Título: Freio dos emergentes e crise da Europa dominarão cúpula do Brics
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 28/03/2012, Economia, p. 24
Dilma vai reforçar posição de que países do grupo darão impulso à economia global
NOVA DÉLHI e BRASÍLIA. A desaceleração do crescimento nos países emergentes, assim como no resto da economia mundial, é o principal assunto na pauta da quarta reunião de cúpula do grupo Brics, que reúne a partir de hoje, em Nova Délhi, capital da Índia, as cinco maiores potências emergentes: Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul. A presidente Dilma Rousseff desembarcou ontem no início da tarde (horário local) na capital, tendo na agenda outra preocupação: a crise europeia. Segundo a embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis, principal negociadora do Brasil no Brics, desaceleração e crise dominarão os debates.
- A redução da economia global é um assunto que preocupa todos: Brics, países em desenvolvimento e desenvolvidos - disse Edileuza, acrescentando que, com relação à crise europeia, o Brics vai reiterar sua posição. - Os países do Brics, em 2012, serão responsáveis por 56% do crescimento mundial. O G-7 (que reúne os sete países mais ricos do mundo: Estados Unidos, Alemanha, França, Grã-Bretanha, Japão, Canadá e Itália) vai responder por 9%, menos que a América Latina, com 9,5%. Só isso já é eloquente.
O Brics, que surgiu para tentar mudar o domínio de europeus e americanos no comando das agências internacionais, como ocorre desde a Segunda Guerra Mundial, não lançou um candidato ao Banco Mundial (Bird) nem chegou a um acordo sobre um nome. O mesmo aconteceu na escolha do comando do Fundo Monetário Internacional (FMI). A Índia já havia anunciado a decisão, confirmada ontem por negociadores brasileiros: cada país está livre para apoiar o nome que quiser.
Dilma passa o dia em hotel, e filha celebra aniversário
Há três candidatos para o Bird: o americano de origem coreana Jim Yong Kim, a ministra da economia da África do Sul, Ngozi Okonjo-Iweala, apoiada pelos países africanos, e o ex-ministro colombiano José Antonio Ocampo. O Brasil não anunciou sua preferência. Já a China negociou, no ano passado, apoio ao candidato americano. Em troca, os EUA apoiarão um chinês para o terceiro posto mais importante do FMI.
Edileuza não vê problema no fato de não haver um candidato apoio conjunto do Brics:
- Não se trata de um problema de nomes, mas de mudar a maneira de escolher os líderes dessas instituições. Deveria ser por mérito e não por critério.
O Brics também está sendo pressionado a colocar mais dinheiro no FMI para ajudar países europeus a saírem da crise. Na cúpula, o bloco insistirá que pode ajudar, mas só quando os europeus acertarem o volume de recursos do fundo de proteção contra o contágio da crise grega.
A reunião vai anunciar um grupo de trabalho para discutir como criar uma espécie de BNDES do Brics. A importância disso, explicou Edileuza, é criar uma opção de financiamento, sobretudo para países em desenvolvimento. Até que a instituição seja criada, cada banco de desenvolvimento do bloco assinará acordo para facilitar a concessão de cartas de crédito para financiar exportações e investimentos em moedas locais.
Dilma desembarcou por volta de 13h (hora local) e foi direto para o hotel Taj Palace, onde foi recebida com um colar de flores no pescoço e um bindi na testa (tinta vermelha), tradições indianas. Cansada, ela passou o dia no hotel, onde celebrou o aniversário de sua filha Paula, que está na comitiva, junto com ministros e cerca de 60 empresários.
Empresário indiano: setor privado não está engajado
O indiano Rakesh Vaidyanathan, sócio do Jai Group, que busca incentivar o comércio, a criação de empresas e os investimentos no bloco, acha que os países do Brics, em vez se concorrerem entre si, deveriam se unir e criar multinacionais para concorrer com os ricos.
- A agenda Brics é muito governamental: o setor privado não está engajado como deveria. Há desconfiança no Brasil em relação a indianos e chineses, vistos como concorrentes - afirmou. - Brasil, Índia e China têm tentado exportar as mesmas coisas para os países ricos.
Vaidyanathan cita como exemplo o café. O Brasil, explicou, é um grande exportador, mas não tem uma marca internacionalizada de café, enquanto a Alemanha, "que não produz um grão", tem. Ele ainda propôs um banco comercial do Brics.
- Empresários brasileiros definem a cultura como língua comum e vão para Moçambique e Angola ou para Europa e EUA. Empresas coreanas, que não falam inglês facilmente, estão fazendo muito sucesso na Índia.
Na sexta-feira, será lançado em Bombaim o Bricsmart, índice das bolsas dos países do Brics. Segundo o Itamaraty, participarão a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa); a HKEx, de Hong Kong; a JSE, da África do Sul; a Bolsa de Bombaim (Índia); e a Micex-RTS (Rússia).
COLABOROU Eliane Oliveira