Título: Renúncia é cogitada
Autor: Maltchik, Roberto
Fonte: O Globo, 28/03/2012, O País, p. 3
Sem apoio, senador entrega liderança do DEM e pode até deixar mandato
BRASÍLIA. A situação política do senador Demóstenes Torres piorou muito ontem e já não se descarta até uma renúncia do mandato em função da perda do apoio de antigos aliados no Senado. Com a imagem de defensor da ética maculada, a abertura de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) e sob o risco de ser expulso do partido e processado no Conselho de Ética do Senado por quebra de decoro parlamentar, Demóstenes foi forçado a entregar o cargo de líder do DEM. Nas primeiras horas da manhã ainda pediu aos colegas para não ter um julgamento político.
O senador goiano chegou a apelar para inimigos ferrenhos, como o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), e o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), com quem teve um dos mais acalorados embates no plenário nos últimos anos. Mas não conseguiu garantia de que não sofrerá um julgamento político. Em 2007, quando enfrentava processo de cassação pelo envolvimento com lobistas, Renan teve em Demóstenes um dos mais duros algozes.
Sem dar entrevistas e fugindo dos jornalistas - entrando e saindo do Senado pelos fundos -, Demóstenes passou a manhã em reuniões reservadas com líderes no Senado, do seu grupo de oposição e também com governistas. O encontro com Renan Calheiros, pelo menos por enquanto, teve o resultado esperado.
- Eu acho que , em havendo investigação dos órgãos de controle, não há necessidade de uma investigação política aqui no Senado - defendeu Renan, que enfrentou processo de cassação no Senado e foi absolvido, mas teve que renunciar à presidência da Casa.
Depois de receber de Demóstenes a carta-renúncia à liderança, o presidente do DEM, senador José Agripino (RN), assumiu o cargo de líder e lembrou o caso da expulsão do ex-governador José Roberto Arruda, declarando que, oficialmente, o partido ainda não discute uma possível expulsão de Demóstenes. Mas, ao ser questionado, deixou claro que, se ficar comprovado seu envolvimento em irregularidades no escândalo da Operação Monte Carlo, isso não está descartado.
- Se chegar a evidências como no caso do Arruda? O partido não hesitará nem um minuto! (sobre a expulsão de Demóstenes) - disse Agripino, informando que não conversou sobre a possibilidade com Demóstenes, mas que ele sabe disso. - Até lá estaremos reféns dos fatos. Estamos no campo das hipóteses. O DEM tem autoridade moral para dizer e fazer o que os outros partidos não fizeram. Não convivemos com a perda da ética - disse Agripino.
Até a decisão do procurador Roberto Gurgel de encaminhar o caso ao Supremo, o PSDB ainda relutava em falar em processo no Conselho de Ética. Mas, no final do dia, o líder tucano Álvaro Dias (PR) mudou o discurso e disse que, se houver envolvimento de parlamentares, o PSDB vai tomar providências enérgicas e imediatas:
- Conhecendo o teor das investigações e se houver justificativas para tal, se houver envolvimento de parlamentares, eu apoio a ida do caso para o Conselho de Ética. Não podemos usar dois pesos e duas medidas.
Em silêncio desde 6 de março, quando foi à tribuna se defender das primeiras denúncias e recebeu a solidariedade maciça do plenário, Demóstenes divulgou carta enviada a Sarney afirmando que não pretende voltar à tribuna até conhecer o teor das investigações da PGR e da Polícia Federal. Mas disse que não deixará nada sem resposta.
"(...) Não me escusarei de responder a qualquer questionamento que, porventura, seja feito pelos senadores e senhoras senadoras. Reafirmo o que disse no plenário: se existe alguma suspeita sobre o meu procedimento, exijo profunda e meticulosa investigação no foro constitucional adequado, qual seja o Supremo Tribunal Federal."