Título: Sem alerta de tsunami
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 29/03/2012, Economia, p. 23
Em reunião do Brics na Índia, Dilma ataca protecionismo de ricos, mas alivia na retórica
Deborah Berlinck
Roberto Stuckert Filho/PR
A presidente Dilma Rousseff alertou ontem na Índia para o surgimento de "novas e perversas formas de protecionismo" no mundo, citando explicitamente uma "guerra cambial" - que, segundo ela, é provocada por políticas expansivas dos países ricos. A presidente se referiu à enxurrada de dinheiro que estas nações estão injetando em suas economias devido à crise, resultando em excesso de liquidez na economia. Em busca de rentabilidade, o dinheiro excedente acaba indo para países emergentes, o que provoca a valorização de moedas locais, como o real, e torna mais caras as exportações de seus produtos.
O discurso de Dilma foi feito durante a solenidade em que recebeu o título de doutora honoris causa da Universidade de Nova Délhi. A presidente começou frisando que a crise atual começou nos países ricos:
- Ela (a crise) não será superada por meio de meras medidas de austeridade, consolidação fiscal e desvalorização da força de trabalho. Muito menos por meio de políticas expansionistas que ensejam uma guerra cambial e introduzem no mundo novas e perversas formas de protecionismo - disse a presidente.
Neste trecho, Dilma pulou a parte escrita do discurso em que usava a expressão "tsunami monetário". Mas os indianos na plateia receberam, em inglês, a versão escrita em que ela diz que políticas expansionistas provocam "um verdadeiro tsunami monetário", além de guerra cambial.
Ela também frisou a pertinência da união entre Brasil e Índia, que apesar de separados por "milhares de quilômetros, têm desafios comuns". Um deles: "Lograr altas taxas de crescimento mas, ao mesmo tempo, eliminar a pobreza e, sobretudo, reduzir a desigualdade social em um marco de expansão e de aprofundamento da democracia".
Dilma ressaltou que a política de inclusão social no Brasil incorporou 40 milhões de homens e mulheres na produção e no consumo no Brasil, assegurando um "grande dinamismo" à economia brasileira.
Nas questões de paz e segurança, Dilma defendeu a posição tradicional da diplomacia brasileira e rejeitou "ações unilaterais e as doutrinas que enfatizam o uso da força, as atitudes preconceituosas e intolerantes". Ela defendeu o diálogo e a cooperação, mas sobretudo a reforma das instituições globais, "inclusive do Conselho de Segurança da ONU", onde o Brasil pleiteia há anos um assento permanente.
Banco do bloco será opção a FMI e Bird
Dilma e sua equipe de seis ministros se preparavam ontem para uma maratona de debates, hoje, durante o 4 encontro do Brics - grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O encontro foi aberto oficialmente em um jantar ontem à noite. Mas é a partir de hoje que os chefes de Estado e de governo vão decidir questões de fundo, como o que fazer diante da crise europeia e da desaceleração do crescimento global. Na agenda também está a criação de uma espécie de BNDES do Brics - um banco de desenvolvimento que sirva como alternativa para os países emergentes.
A proposta, porém, terá ainda que ser definida pelos cinco líderes do Brics: Manmohan Singh, premier da Índia, e os presidentes Hu Jintao (China), Dmitri Medvedev (Rússia) e Jacob Zuma (África do Sul), além de Dilma. Por exemplo: como será a distribuição de cotas e se haverá ou não rodízio no comando do banco. Ontem, Dilma discutiu o assunto num encontro bilateral de 50 minutos com o presidente sul-africano Zuma.
Segundo Thomas Traumann, porta-voz da presidência, Zuma disse à Dilma que seu país tem muito interesse na participação de empresas brasileiras na construção de usinas hidrelétricas, rodovias e aeroportos. Mas há o problema do financiamento, e a ideia de um banco do Brics é justamente para resolver esse tipo de problema.
- Ele (presidente Zuma) fez uma grande defesa do banco do Brics, e de como isso pode ser a solução para financiamento de obras no Brasil e na África do Sul - disse o porta-voz.
Zuma defendeu que o banco seja uma alternativa ao Banco Mundial (Bird) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI). E se mostrou otimista, dizendo ser possível que a instituição esteja operacional já na próxima reunião de cúpula do Brics, na África do Sul, no ano que vem. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, foi mais cauteloso.
Hoje, os presidentes dos bancos de desenvolvimento do bloco assinarão memorando que abre o caminho para o financiamento em moeda local do comércio e do investimento entre os países do Brics. Pelo mecanismo, uma empresa brasileira que planeja investir na China não precisa tomar empréstimo em dólar e pode levantar o crédito diretamente do banco de desenvolvimento da China, em yuan. A vantagem é que fica devendo na moeda local, fugindo das oscilações do dólar.