Título: A dependência é nossa
Autor: Ordoñez, Ramona
Fonte: O Globo, 31/03/2012, Economia, p. 27

Com aumento da frota e álcool mais caro, importação de gasolina deve crescer 33% este ano

O aumento da frota de automóveis e os preços desvantajosos do álcool hidratado estão provocando uma disparada no consumo de gasolina desde 2011, que obriga o país a ampliar as importações do combustível e sua dependência do mercado externo. No ano em que se realiza a conferência Rio+20, a expectativa do diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, é que a importação de gasolina chegue à marca recorde de 80 mil barris diários, o que representa crescimento de 33,3% em relação aos 60 mil barris diários que foram importados no ano passado. Isso depois de um salto de mais de seis vezes do volume importado entre 2010 e 2011.

- O consumo médio de 2012 de gasolina deve ser da ordem de 480 mil barris diários - afirmou Costa.

Segundo Costa, o consumo de gasolina registrou um aumento de 34% nos dois primeiros meses deste ano em comparação a igual período do ano passado. No ano de 2011,, a demanda por gasolina teve incremento de 18,3%.

O crescimento do consumo já havia impulsionado as importações em 2011. Os 60 mil barris diários representaram um aumento de mais de seis vezes em comparação à média de 9 mil barris diários importados em 2010, quando o país deixou de ser autossuficiente na oferta de gasolina após 40 anos.

As refinarias da Petrobras já estão trabalhando a plena capacidade desde o ano passado, sem condições de aumentar significativamente a produção de gasolina. Segundo Costa, somente a partir de julho do próximo ano, quando iniciar a operação da Refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, é que deve ocorrer uma redução nas importações de gasolina.

A estatal acaba saindo no prejuízo por causa dessas importações., oriundas sobretudo dos Estados Unidos. Isto porque a Petrobras compra o produto no exterior a um preço e vende no mercado interno a um valor inferior. No ano passado, a diferença de preços da gasolina e do óleo diesel vendidos nas refinarias da Petrobras em relação aos preços internacionais teve forte reflexo no resultado da estatal. O mercado estimou que, no ano passado, somente com a defasagem de preços dos combustíveis a Petrobras arcou com uma redução em sua receita da ordem de US$ 6,9 bilhões.

Uso do álcool não está vantajoso

Em paralelo ao aumento da frota de automóveis que circulam no país, os preços elevados do etanol contribuem para esta maior demanda por gasolina. Como o álcool tem rendimento menor que o da gasolina no motor dos veículos, seu uso só é economicamente rentável se custar até 70% do preço de seu concorrente.

Notadamente desde o ano passado isso não vem acontecendo. Segundo pesquisa de preços dos combustíveis da Agência Nacional do Petróleo (ANP), divulgada ontem, o etanol continua a não ser vantajoso praticamente em todo país.

De acordo com o levantamento, na semana passada o etanol foi vendido a um preço médio de R$ 2,009 o litro no país, enquanto a gasolina tinha um preço médio de R$ 2,741 o litro. Ou seja, o álcool custava 73,2% do preço da gasolina.

No Estado do Rio, também continua não sendo vantagem para o consumidor abastecer o tanque com álcool. Na semana passada, o álcool foi vendido a um preço médio de R$ 2,273 o litro, contra R$ 2,852 o litro da gasolina. Nesse caso, os preços do álcool estão ainda mais próximos aos da gasolina: 79,6% do valor do óleo.

Em março, o etanol vendido nos postos registrou um aumento de 1%, passando de R$ 1,989 o litro na primeira semana, para R$ 2,009 na semana de 25 a 31 deste mês. A gasolina, por sua vez, na semana passada, depois de ligeiras reduções ao longo de março, voltou ao mesmo patamar de preços verificado na primeira semana do mês.

Em São Paulo, o álcool ficou em 69,8% do preço da gasolina na semana passada. O produto foi vendido a R$ 1,863 por litro, contra R$ 2,666 a gasolina, ou seja, praticamente atingindo o ponto de equilíbrio.