Título: Se chove, o esgoto invade. Se não, o cheiro fica insuportável
Autor: Duarte, Alessandra
Fonte: O Globo, 01/04/2012, O País, p. 3
Moradores do Rio lutam para driblar a falta de saneamento
Desde que nasceu, há 45 anos, o instrutor de motorista de ônibus Celso Pereira vive em Nova Cidade, bairro de São Gonçalo, no Rio. Em frente à porta da sua casa, na Rua Plínio Leite, passa um valão e a única maneira de entrar em casa é andando por uma pequena ponte construída em frente a todas as moradias. Ao lado de Celso, mora sua mãe. Os dois, no entanto, tiveram que abandonar as casas térreas e construíram residências novas em cima da laje. Era isso ou continuar perdendo móveis e acordando com o esgoto invadindo a casa.
- Sempre foi assim. E só aos 12, 13 anos, eu vi que em outros bairros as pessoas viviam sem esgoto na porta. Fechamos as casas e fizemos outras porque vimos que não valia mais a pena mantê-las. Aqui, se chove, o esgoto invade. Mas se não chove, o cheiro fica insuportável.
Celso mora numa área que será beneficiada pela obra do PAC "Implantação de rede coletora e ligações domiciliares de esgoto nas bacias hidrográficas dos rios Mutondo e Coelho". Além de Nova Cidade, os bairros Luiz Caçador e Trindade terão melhorias. No entanto, a obra estava paralisada em dezembro de 2011, depois de ter começado sem medição em 2010. Segundo Wagner Victer, presidente da Cedae, "a obra será retomada em 90 dias". A Cedae cuida ainda da obra de melhoria da Estação de Tratamento (ETE) de São Gonçalo, que também é do PAC e está atrasada, segundo o relatório do Trata Brasil.
- A ETE estará pronta até dezembro de 2012 - diz Victer.
No bairro Luiz Caçador, Simeia Martins enfrenta problemas parecidos com os de Celso. Seu sogro teve que suspender a casa, depois que a mistura de água e esgoto chegou à cintura num dia de chuva. Do outro lado da Rua Bento Felipe, o músico Wendel Castilho está reformando a casa e construindo um muro para separá-la do valão, que um dia foi conhecido como Rio Mutondo:
- Meu filho de 4 anos não pode brincar no quintal, a gente não pode deixar a casa aberta e temos quatro gatos para evitar que os ratos invadam a casa.
O PAC 1, segundo o Ministério das Cidades, recebeu 1.547 propostas de municípios, estados e companhias de saneamento. Por e-mail, o ministério diz que "no fim de 2011, os empreendimentos do PAC 1 que estavam paralisados somavam investimentos de R$ 4 bilhões, em cerca de 370 contratos, sendo que, desses, mais de 170 estavam paralisados há mais de 12 meses".
Mãe de Wendel, Marlene, de 62 anos, mora há 34 em Luiz Caçador. Em maio de 2009, viu o valão transbordar e a casa ser tomada por "um metro de água e esgoto":
- No valão tem cobra, lagarto e até jacaré, e a gente fica com medo. Mas, mesmo estando aqui há muito tempo, ainda tenho esperança de ver o rio limpo. A gente quer que nosso bairro melhore, não é?