Título: Milhões em promessas
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Fonte: O Globo, 02/04/2012, O Mundo, p. 23
Rebeldes sírios receberão salário de países do Golfo e equipamento de comunicação dos EUA
Istambul, Turquia
A comunidade internacional ficou mais próxima de uma interferência direta no conflito entre opositores e o presidente Bashar al-Assad após a reunião dos "Amigos da Síria", um grupo de 83 países, em Istambul. Os países árabes prometeram destinar US$ 100 milhões para pagar salários aos combatentes por meio de um fundo do Conselho Nacional Sírio, e os EUA se comprometeram a fornecer equipamento de comunicação aos opositores para ajudar na organização e na fuga aos ataques das forças leais ao regime do ditador. As promessas, que sinalizam um envolvimento mais próximo no confronto, refletem a percepção crescente de que após um ano de levante, os esforços diplomáticos e as sanções impostas ao regime, por si só, não são suficientes para acabar com a repressão.
Segundo Molham al-Drobi, do Conselho Nacional Sírio (CNS), a oposição tem promessas de US$ 176 milhões em ajuda humanitária, além dos recursos para salários por três meses. A expectativa é que a injeção de capital estimule deserções entre as forças leais ao regime. Segundo al-Drobi, parte do dinheiro já está circulando entre os combatentes, mas não especificou qual foi o mecanismo usado para distribuir o dinheiro. O presidente do CNS, Burhan Ghalioun, explicou em entrevista que o órgão pagará, por meio deste fundo, os salários de todos os soldados e membros do Exército Livre da Síria.
Apesar de ter aceitado o plano de paz apresentado pelo enviado especial da ONU, Kofi Annan, Assad não implementou o conjunto de medidas, que incluíam cessar-fogo imediato, retirada das forças armadas das cidades e permissão para a entrada de ajuda humanitária. Diante desse impasse, as potências instaram Annan a apresentar um cronograma com os próximos passos a seguir em relação ao país. Há um temor de que o ditador use o plano como forma de ganhar tempo. Annan deve apresentar hoje um relato ao Conselho de Segurança da ONU dos esforços para encerrar o conflito no país que, de acordo com os cálculos das Nações Unidas, já matou mais de 9 mil pessoas.
A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, alertou Assad que ele não pode mais postergar a implementação da proposta de paz e disse que a oposição síria está ficando cada vez mais focada e organizada.
— Quase uma semana se passou, e temos que concluir que o regime está acrescentando isso em sua longa lista de promessas quebradas. Não há mais tempo para desculpas ou atrasos... Esse é o momento da verdade — disse, afirmando que o país busca novas formas para expandir o apoio aos rebeldes.
Discurso semelhante foi adotado pelo primeiro ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Ele pediu ao Conselho de Segurança para agir após o fracasso dos esforços de Annan.
— Se o Conselho de Segurança hesitar, não haverá outra opção a não ser apoiar o direito legítimo do povo da Síria de se defender — disse.
No documento final do encontro, o grupo de países ocidentais e árabes afirma que Assad não tem uma oportunidade indefinida para cumprir seus compromissos junto ao plano de Annan, que conta com o apoio das Nações Unidas e da Liga Árabe.
"O regime será julgado por seus atos e não por suas promessas", afirma o documento.
Reconhecimento da oposição ao regime
Com os vetos de China e Rússia a qualquer medida que abra espaço para uma ação militar no âmbito da ONU, os países alinhados contra Bashar al-Assad tentam impulsionar a dividida oposição ao regime. No encontro em Istambul, o Conselho Nacional Sírio foi reconhecido como representante legítimo do país e principal interlocutor da oposição no país.
Apesar disso, o grupo não fez qualquer menção ao fornecimento de armas aos rebeldes do Exército Livre da Síria, como chegou a ser defendido por alguns Estados do Golfo Árabe, mas afirma que continuará a buscar medidas adicionais para proteger o povo sírio.
Rússia, China e Irã não fizeram parte do encontro, que foi descrito pela mídia estatal síria como "uma escalada regional e internacional para encontrar meios de matar mais sírios e destruir a sociedade e o país, para alcançar o objetivo amplo de enfraquecer a Síria". Cerca de 50 simpatizantes de Assad protestaram do lado de fora da conferência, sacudindo bandeiras da Síria, Rússia e da China e segurando fotos do ditador sírio. Eles foram removidos pela polícia.
Enquanto a comunidade internacional discute o melhor caminho a seguir, a violência na Síria continua. Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, 70 pessoas foram mortas no país ontem, incluindo 12 civis vítimas de francoatiradores e bombardeios em Homs. O governo sírio diz estar próximo de acabar com o levante. O porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Jihad al-Makdissi, afirmou à TV estatal que "a batalha para derrubar o Estado acabou".